sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ENVELHECER

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Um desses dias, uma jovem me perguntou como eu me sinto envelhecendo. Levei um susto, porque eu não me vejo como uma velha. Ao notar minha reação, a garota ficou embaraçada, mas eu expliquei que era uma pergunta interessante, que pensaria a respeito disso e depois voltaria a falar com ela.
Pensei e concluí: a velhice é um presente. Eu sou agora, provavelmente pela primeira vez na vida, a pessoa que sempre quis ser.
Oh, não meu corpo! Fico incrédula muitas vezes ao me examinar, ver as rugas, a flacidez da pele, os pneus rodeando o meu abdômen, o traseiro rotundo e os seios já caídos. E constantemente examino essa pessoa velha que vive em meu espelho (e que se parece demais com minha mãe), mas não sofro com isso. Não trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, e o carinho de minha família por menos cabelos brancos e uma barriga mais esguia.
Tornei-me amiga de mim mesma. Não fico me censurando se quero comer um docinho a mais, se tenho preguiça de arrumar minha cama, ou se compro um sapato que não necessito, mas que ficou tão lindo no meu pé. Conquistei o direito de matar minhas vontades, de ser bagunceira, de ser extravagante.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.
Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogando paciência no computador até as tantas da madrugada e depois só acordar ao meio-dia?
Andarei pela praia em um maiô esticado sobre um corpo decadente, mergulharei nas ondas, darei pulinhos se quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros. Eles, também, se conseguirem, envelhecerão.
Sei que ando esquecendo muita coisa, o que é bom para poder ser perdoada. Mas, pensando bem, há muitos fatos na vida que merecem ser esquecidos. E das coisas importantes, eu me recordo frequentemente.
É certo que ao longo dos anos meu coração já sofreu muito. Mas um coração partido é que nos dá a força, a compreensão e nos ensina a compaixão. Um coração que nunca sofreu, é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser forte, apesar de imperfeito.
Sou abençoada por Deus, por ter vivido o suficiente para ter o riso da juventude e da maturidade gravados para sempre, em sulcos profundos, no meu rosto. Muitos nunca riram, muitos morreram antes que seus cabelos pudessem ficar prateados.
Conforme envelhecemos, fica mais fácil ser positivo e ligar menos para o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Conquistei o direito de estar errada e não ter que dar explicações.
Assim, respondendo à pergunta daquela jovem graciosa, posso afirmar:
- Eu gosto de ser velha. Libertei-me! Gosto da pessoa que me tornei. Não vou viver para sempre, mas enquanto estiver por aqui, não desperdiçarei meu tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupando com o que virá. O futuro pertence a Deus! Penso que nunca me sentirei só. Sou receptiva e carinhosa, e se amizades antigas teimam em partir antes de mim, outras novas, assim como você, me procuram buscando o que terei sempre para dar, enquanto viver: experiência e muito amor.

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