sábado, 14 de fevereiro de 2015

CARNAVAIS DO MEU TEMPO

Texto de Isvânia Marques
 Professora, Escritora e Presidente da Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes


Estou diante da tevê do meu quarto. Imagens desfilam à minha frente, quase em câmara lenta, para chamarem a minha atenção. Entretanto, não conseguem prender-me à tela. De súbito, o som do samba-enredo anuncia o carnaval do novo milênio, num ensaio sem o luxo do dia da festa, exibindo corpos femininos cada vez mais nus. Alguns deles até esquecidos de suas imperfeições...
Parei no tempo e percorri outros espaços, onde o samba foi ficando cada vez mais vagaroso até transformar-se em marcha lenta, deixando que a música sacudisse o salão.
O meu quarto subitamente mudava de cenário: a cama era o palco, onde uma orquestra tocava sobre ela. Em lugar do guarda-roupa, havia mesas repletas de pessoas animadas e fantasiadas; e o pouco que restava do quarto transformara-se num imenso salão, com pilastras decoradas por máscaras disfarçadas de pierrôs, colombinas, ciganas, piratas... mais outras dezenas de personagens que figuravam o meu devaneio. E o piso molhado do salão parecia um tapete colorido de papel, enfeitado pelas serpentinas e confetes.
A doce lembrança do carnaval da minha terra me invadiu e, num passe de mágica, deparei-me vestida nas cores do carnaval, pulando e entoando o hino momesco da época: “Bandeira branca, amor...”
Naquele instante, o meu pensamento se deixou invadir pela saudade de um período em que até hoje minha memória preserva e acalenta: o carnaval da minha querida “Cidade-Modelo” que, entre tantos outros, o do ano de 1969 coroou a minha juventude.
Os clubes presenteavam seus sócios com bailes majestosos e orquestras de frevo. Quando os músicos estavam cansados, apenas o barulho do surdo (instrumento), insistente, alimentava e servia de consolo à animação laboriosa dos muitos farristas que pulavam no salão. Se o ruído solitário do tambor não fosse logo substituído pela famosa música “Vassourinhas” (ou por outra do mesmo estilo), a turma berrava: “Olha a cera! Olha a cera!”. Era este o grito de guerra do folião, em repúdio à morosidade NE à canseira dos músicos, uma vez que não lhes era dado o direito de sequer cansar...
A sede de folia atiçava as pessoas, fazendo-as puxar aquelas que permaneciam sentadas nas cadeiras, observando, embevecidas e tímidas, o “gingado” peculiar a cada dançarino daquela circunstância. Enquanto isso, as serpentinas cruzavam o salão, lançadas de um lado para o outro, às vezes caindo no chão e outras, sobre nossas cabeças e ombros, formando colares coloridos de papel em torno do nosso pescoço, fabricando uma nova fantasia, inesperada, criativa e excitante.
Em poucos minutos, elas e o confete grudavam ao suor do nosso corpo, ao brilho das purpurinas, à excitação do álcool, aos cheiros dos lança-perfumes, dos extratos nacionais e internacionais (o famoso “Lancaster”), dos cheiros sem cheiros, dos odores dos “descuidados”, dos suores embalados na alegria do “Quanto riso! Oh, quanta alegria!...” E a melhor parte da música estava no seu final: “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval...”.  Recordo-me que o “ficar” (tão costumeiro nos dias de hoje) somente era permitido em épocas de carnaval. Depois (aí sim!), vinha o remorso pelo que fora feito e pelo que não fora...
Já as ruas ornamentavam-se da alegria do povo, dos enfeites nos postes, do tradicional corso (desfile de carros pelas ruas), esbanjando combustível (tão barato àquele tempo!), “queimando” os pneus (para chamar a atenção do público), jogando água, pó e maisena nos transeuntes. Tudo era válido! E ninguém brigava por isso...
Durante o dia, os “bobos” (sempre mascarados ou vestidos de ursos) faziam a alegria da garotada que corria atrás deles, enquanto outros garotos choravam assustados com as máscaras que cobriam os rostos daqueles anônimos foliões.
As casas também se arrumavam para receber alguns blocos (formados por amigos) e o já tradicional grupo “Os Cangaceiros”. Este grupo era o mais interessante, pois obedecia a um ritual diferente: Virgulino Lampião (chefe do bando/bloco) mandava um dos seus avisar aos donos da casa que se preparassem, pois seriam os próximos a visitar. O anúncio era feito atirando balas de festim para o alto. Pouco depois, aproximava-se o “bando”, cujos componentes andavam a cavalo e faziam um barulho enorme cavalgando no paralelepípedo da cidade. Quem mais chamava a atenção era Maria Bonita (representada pelo “cabra” mais bonito do grupo) e a dança regional acompanhada pela sanfona, zabumba, pífano, triângulo e outros. Tais movimentos chamavam a atenção da vizinhança, por isso, os anfitriões tinham que preparar mais comida do que imaginavam...
O último dia era marcado pela fadiga estampada no rosto do folião e pela melodia “Oh, quarta-feira ingrata, chega tão depressa...”, descontentando os seus sentimentos e expectativa, fazendo-o voltar à inesperada realidade a efêmera quimera.
Os raios de sol surpreendiam a todos, pegando-os desprevenidos, com maquiagens desbotadas, rostos pálidos, vestes amarrotadas, pés descalços entregues ao desânimo da ressaca.
As ruas sujas exibiam uma nova paisagem decadente. Nelas, os papelões serviam de cama a alguns adeptos do bloco “O que é que eu vou dizer em casa?”, e também àqueles que não possuíam bloco nem lar algum, senão o da própria rua que, àquele instante, dava passagem ao canto engrolado do bêbado, jogado no canto da calçada, feito lixo esquecido de si mesmo...
E, foi tal e qual a música “quarta-feira ingrata”, eterna canção de despedida carnavalesca, que a saudade (também molesta) apoderou-se de mim, sem qualquer aviso prévio, “só pra me contrariar!”...

Um comentário:

  1. Não se faz mais Carnaval como antigamente! Tudo bem que os desfiles têm beleza, criatividade e cultura... mas a maioria dos participantes e espectadores fica, apenas, em rostos e corpos...

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