quarta-feira, 1 de abril de 2015

MALUCO BELEZA

Texto de Aloisio Guimarães

É praxe que toda cidade interiorana tenha suas figuras folclóricas. A minha querida Palmeira dos Índios, no agreste alagoano, não fugiu à regra. E lá, como dizia o meu velho pai, "Aloisio Gordinho", foi logo de enxurrada, com cinco malucos, todos vivos e quase numa mesma época: "Preá Cuiudo", "Beleza", "Jaciobá", "Pitú" e "Chupetinha".
Lembro-me bem deles, até porque, sendo criança, morria de medo dos nossos "malucos"...
O "PREÁ CUIUDO" era o menos doido deles todos. Na verdade, "Preá Cuiudo" jamais poderia ser considerado doido. Ele era um trabalhador, eletricista de profissão e que teve a honra de ser presenteado pela natureza com “algo avantajado”, que saltava aos olhos da cara (ou seria das cuecas?). Era de estrutura baixa, andava meio curvado, com a língua para fora e no canto da boca. Ele “endoidava” somente quando a meninada o chamava pelo seu apelido. Nessas horas, sai debaixo!
O "BELEZA" se vestia igual a um ”cabra de Lampião”. Andava sempre cheio de bugigangas penduradas na roupa do corpo, pedaços de paus nos ombros... Mas não ofendia ninguém. Babava muito e seu passatempo preferido era tocar seu realejo. Vez por outra, quando ele aparecia no “Senadinho”, bar pertencente ao meu velho pai, este lhe dava uma ”lapada de cachaça” e "Beleza" seguia o seu caminho, feliz da vida... Desde que saí de Palmeira dos Índios nunca mais tive notícias dele. Com certeza, já morreu faz tempos.
O "JACIOBÁ" era o mais engraçado de todos porque, além de doido, era surdo-mudo! Apesar dessa estranha combinação, todo mundo entendia tudo aquilo que ele queria dizer. Quem gosta de futebol e morou em Palmeira dos Índios, deve se lembrar de muito bem dele: morava, juntamente com o seu cão, um cachorro vira-latas, em um cômodo situado embaixo da arquibancada do velho Estádio Edson Amaro (hoje Estádio Juca Sampaio), pertencente ao glorioso tricolor palmeirense, o CSE (Centro Social Esportivo), time do nosso coração! Além de morar no estádio, ele vigiava, fazia a marcação do campo e cuidava do estádio. Lembro-me muito bem que, certa fez, o Ednelson (lateral direito do time), para sacanear com "Jaciobá", fez aqueles gestos característicos de quem tinha enrabado o cachorro dele. Não deu outra: "Jaciobá" endoidou de vez, puxou uma faca-peixeira, grande e enferrujada, e colocou o Ednelson para correr; ele e dezenas de pessoas que assistiam ao treino, inclusive eu! O que mais chamava a atenção no "Jaciobá" era a sua assiduidade ao Cine Palácio, do nosso vizinho Itamar Malta. Podia “chover canivetes” que, todo santo dia, ele estava no cinema, sentado na primeira fileira, a três metros da tela. Assistia ao mesmo filme vários dias seguidos... O mais engraçado de tudo e o que mais provocava gargalhadas era que, naqueles filmes em que o “artista morria no final”, "Jaciobá" esbravejava alto, chorava (mas chorava mesmo!) e exigia o dinheiro pago pelo ingresso de volta! Não parava de chorar até que o “seu” Zé Gomes (administrador do cinema) devolvesse o dinheiro. No dia seguinte, passando o mesmo filme, lá estava "Jaciobá", novamente no cinema, chorando e exigindo o dinheiro de volta! Amanheceu morto, no lugar em que sempre viveu, embaixo da arquibancada do velho estádio, provavelmente de ataque cardíaco.
O "PITÚ" viveu muitos anos na cidade. Era um doido quase que inofensivo. Apenas ficava uma fera, atirando pedras, quando o chamavam por este apelido. Ninguém sabe o motivo de sua raiva nem o seu paradeiro final.
Aquele que mais metia medo na garotada era o "CHUPETINHA", pela fama de imoral e tarado sexual: gostava de se masturbar em via pública. Esse tipo de comportamento sexual indevido é muito comum em pessoas com determinadas “anomalias da cabeça”, digamos assim. Certo dia, "Chupetinha" apareceu morto (assassinado a golpes de enxada), em um matagal situado por detrás da Estação Ferroviária. Até hoje ninguém sabe quem o matou e quais os motivos. Provavelmente, alguém que não gostou de alguma imoralidade que ele tenha praticado...
Com certeza, onde quer que eles estejam, devem estar provocando muitas gargalhadas.
- Que Deus os tenha!

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