quinta-feira, 21 de maio de 2015

O CUSCUZ DA SEBASTA

Texto de Aloisio Guimarães 

O meu pai trabalhou na Rede Ferroviária Federal S.A., na qualidade de Chefe de Estação, tendo exercido suas atividades em algumas cidades, mas a maior parte do tempo foi em Palmeira dos Índios ou em Igaci.
Quem não conhece Igaci, saiba que é uma pequena cidade, distante cerca de 16 km de Palmeira dos Índios. Todo mundo que viaja de Palmeira dos Índios para Arapiraca, ou vice-versa, obrigatoriamente, tem que passar por Igaci. As duas cidades são tão próximas uma da outra que muitas vezes fiz o percurso Palmeira/Igaci “nas canelas”, caçando passarinho, ou então de bicicleta.
Como não pagávamos passagens nos trens, quase todos os dias, eu e o meu irmão Casé, estávamos em Igaci. Às vezes dormíamos por lá, outras não. Nas vezes que dormíamos, um de nós tinha a obrigação de ir até a casa da Sebastiana, uma conhecida do nosso pai, buscar um cuscuz de milho, ralado na hora, que ela preparava para o nosso velho comer no café da manhã (torrado em casa), com leite de gado, cheio de nata...
Sebastiana, que chamávamos de Sebasta, era uma matuta muito bonita, solteira, galega, olhos verdes... Conhecendo o nosso pai, que sempre “gostou da fruta”, eu e o Casé sempre desconfiamos que ele tivesse algum um “rolo” com a mesma. Mas nunca tivemos a certeza, era só desconfiança.
Pois bem, certo dia, dormimos em Igaci e, no dia seguinte, logo cedo, assim que acordamos, o papai determinou:
- Casé, vá lá, na casa da Sebasta, buscar o cuscuz, que eu mandei ela fazer.
O Casé, ouvindo a ordem do meu pai, se mandou para buscar o tal cuscuz...
Tem um ditado que diz que “quando o cão não vem, manda o secretário” e desta vez, o Casé foi o “secretário do cão”...
Enquanto esperava a Sebasta terminar de cozinhar o cuscuz, ele pegou uma espingarda “soca-tempero” (arma de fabricação caseira, que o homem da roça usa para caçar passarinhos), mirou numa galinha, que ciscava no meio do terreiro e puxou o gatilho... Nada aconteceu. Então o Casé deduziu o lógico: “Está descarregada”... Minutos depois, aparece a Sebasta, com o cuscuz nas mãos. Casé, mirando a espingarda no cuscuz, que estava nas mãos dela, repito, disse:
- Sebasta, já pensou se esta espingarda tivesse carregada?
Disse isto e puxou o gatilho... O que se ouviu e foi um estampido, seguido de pedaços de cuscuz “voando” para tudo quanto era lado! A espingarda estava carregada. Da primeira vez, ela tinha falhado; tinha “quebrado côco”, como diz o matuto.
Felizmente, o cara era bom de pontaria e a Sebasta não sofreu nada!
Depois do tiro, Casé começou a chorar, antevendo a tremenda pisa que ia levar (o meu pai era mais grosso do que papel de embrulhar pregos). Ele só se acalmou, quando a Sebasta disse que ia fazer outro cuscuz e jurou que nunca ia contar ao papai o que tinha acontecido. Promessa feita e aceita.
Para encurtar a conversa, quando Casé chegou com o cuscuz, o meu pai foi logo perguntando, com aquela educação que Deus não lhe deu:
- Casé, que peste você foi que houve? Por que você demorou tanto?
Casé, meio sem graça, respondeu:
- Foi a Sebasta, papai, que acordou tarde e ainda tava ralando o milho...
O meu pai começou a comer o cuscuz, mas não parava de resmungar, baixinho:
- Sei não... Estou desconfiado desse cuscuz, ele está com um gosto estranho...
Quando o velho saiu, eu perguntei ao Casé porque ele tinha demorado tanto. O meu irmão me contou tudo e achava que papai tinha sentindo um “gosto estranho” no cuscuz porque a Sebasta tinha aproveitado uma parte da massa do primeiro cuscuz, para fazer o novo.
O papai faleceu e nunca soubemos se a Sebasta cumpriu a sua promessa de segredo...
Como “conheço o meu gado”, acho que a desconfiança do meu pai com a demora do Casé naquele dia, não foi nada por causa do gosto do cuscuz. Acho que ele ficou com uma pulga atrás da orelha, se perguntando:
- Será que o meu filho também anda comendo o “cuscuz” da Sebasta?
Até hoje, somente o Casé sabe a reposta...

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