domingo, 17 de janeiro de 2016

CHICO NUNES: VERSOS SATÂNICOS

Texto de Aloisio Guimarães

Certo dia um time de futebol de Palmeira dos Índios foi jogar na vizinha cidade de Santana do Ipanema e levaram o Chico Nunes. Antigamente, as equipes de futebol eram formadas somente por jogadores amadores e era muito comum que as equipes visitantes não recebesse dinheiro, jogando apenas pelo transporte e pela “boia” (almoço dos atletas). Nessa época, existia em Santana do Ipanema um restaurante muito famoso, de propriedade de José Petronilo, restaurante famoso devido a sua péssima comida e pela falta de higiene. Na hora de "tirar a barriga da miséria", Chico Nunes soube que tinha sido um dos escalados para almoçar no tal restaurante. Inconformado com o seu destino, Chico Nunes reclamou:
Prefiro entregá meu pé
Pra uma serpente mordê.
Com Cristo me malquerê
E acabá perdendo a fé.
Brigá com uma cascavé,
Me atracá com um crocodilo,
Bebê toda água do Rio Nilo,
Do boi só come o osso,
Mas não me fale em almoço
No hoté do Zé Petronilo.

Desde esse dia, mesmo que quisesse não almoçaria mais ali... Foi almoçar em outro lugar!


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Um belo dia, Chico Nunes foi com seus amigos a uma festa na casa de um cidadão de nome Zé Nicolau, que, conhecedor da má fama do nosso poeta, não ficou muito satisfeito com a sua presença, mas ficou calado, sem reclamar. Pois bem, durante a tal festa, o legítimo bacalhau norueguês - que naquela época era comercializado em fardos ou em barricas (tonel de madeira) - foi o prato principal servido aos presentes. Como o número de convidados e de "penetras" foi muito grande, o bacalhau acabou rapidamente e o Chico Nunes não conseguiu provar nenhum pedacinho da famosa iguaria norueguesa. Então, por gozação, os seus amigos lhe deram uma espinha do bacalhau como “tira-gosto”. Chico Nunes não deixou por menos e demonstrou toda a sua insatisfação por não ter comido o tão badalado peixe, declamando em voz alta:
Da espinha do bacalhau,
Mandei fazer uma vareta
Pra enfiá na buceta
Da mãe de Zé Nicolau.
Saí da minha cidade
Pra vir dançá nesse forno,
Onde a dona da casa é puta,
O dono da casa é corno
E a fia mais nova que tem
Já sabe fudê no torno.

Não precisa dizer que Chico Nunes foi convidado a se retirar do recinto, mas os seus amigos lhe disseram que iriam tentar "limpar a barra" dele com o dono da casa, na tentativa do Chico voltar para a festa. Para demovê-los da ideia, Chico detonou:

Já entrei e já saí
Se eu entrá num saio mais,
Eu num sô couro de pica
Pra tá pra frente e pra trás.

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De tempos em tempos, alguma autoridade política resolve combater o Jogo do Bicho, a contravenção penal mais tolerada no Brasil. O governador Costa Rêgo foi um deles. Combateu e consegui acabar com o tal jogo, pelo menos temporariamente. Durante o tempo em que o jogo estava banido, o governador, de passagem por Palmeira dos Índios, pediu para conhecer Chico Nunes, uma vez que conhecia a fama do poeta e queria conhecê-lo pessoalmente. Mesmo ”puto da vida” com aquele que prejudicou o seu sustento, Chico foi à presença do governador e aproveitou a oportunidade para demonstrar a sua ira, “mandando ver”:

Existe um guvernadô
Que se chama Costa Rego
Que tomou o meu emprego
Porque o jogo acabou.
Isso me desmantelou
Pois o destino assim quis
A sorte me contradiz
Eu fiquei desmantelado,
Largue de ser desgraçado
Seu Costa Rego infeliz.

O governador “tirou por menos” e lhe deu mil réis (muito dinheiro na época).

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Uma das coisas que Chico Nunes mais detestava era de ladrão. Certa vez um gatuno de nome Zé de Nega, roubou uma sombrinha (guarda-chuva feminino) e foi preso pela polícia local. Nessa época, o carcereiro da delegacia era um sujeito chamado Zé Siqueira. Ao saber da prisão, Chico imediatamente, sapecou:
José de Nega, em Palmeira
Fez um papel desgraçado:
Passou a noite trancado
Na pensão do Zé Siqueira,
Recebeu tanta madeira
Que até rolou pelo chão.
Chamou, no auge da aflição,
Palmatória de madrinha...
Tudo por uma sombrinha,
José de Nega é ladrão.

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Certa vez Chico foi à cidade sergipana de Gerum de Itabaianinha, para um daqueles famosos embates de poetas e repentistas. É lógico que Chico foi o vencedor do torneio! A dona do hotel onde ele estava hospedado pediu para ele recitar alguns versos, pois queria ver se ele era bom mesmo. Provocado, Chico, mandou ver:

Só quero que o Criador 
No mundo jogue uma gripe 
Se eu voltar a Sergipe 
De onde agora me vou.
Prefiro ver o horror
Do mundo em peste daninha 
Com uma febre e uma morrinha 
Destruindo tudo que é lar  
A ter que um dia voltar
Em Gerum de Itabaianinha.
Mas se apesar disso tudo
Eu a vergonha perder 
E por aqui aparecer 
Quero que um jegue raçudo
Muito fogoso e taludo 
Sem piedade e receio 
Me pegue pra seus anseios 
Bem de eito pelos quartos
Me bote no chão de quatro
Me atoche e me rasgue no meio.

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