quarta-feira, 13 de julho de 2016

TUAREG

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Entrevista dada por Moussa Ag Assarid, um membro da tribo Tuareg, a Víctor M. Amela:
- Não sei a minha idade. Nasci no Deserto do Saara, sem documentos. Nasci em um acampamento dos nômades Tuaregs, entre Timbuctu e Gao, ao norte de Mali. Fui pastor dos camelos, cabras, cordeiros e vacas de meu pai. Hoje, estudo gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo aos pastores tuaregs. Sou muçulmano, sem fanatismo.
- Que turbante bonito!
- É uma fina tela de algodão; permite tapar o rosto no deserto e continuar a ver e respirar através dela.
- É de um azul belíssimo…
- Nós, os tuaregs, somos chamados de homens azuis por isso; o  tecido solta alguma tinta e nossa pele adquire tons azulados.
- Como conseguem esse tom de azul anil?
- Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os tuaregs, o azul é a cor do mundo.
- Por quê?
- É a cor dominante; é a cor do céu, do teto de nossa casa.
- Quem são os tuaregs?
- Tuareg significa “abandonados”, porque somos um velho povo nômade do deserto, solitários e orgulhosos. “Senhores do Deserto”, é como nos chamam. Nossa etnia é a amasigh (bérbere) e o nosso alfabeto, o tifinagh.
- Quantos são?
- Uns três milhões, e a maioria permanece nômade. Mas a população diminui. “É preciso que um povo desapareça, para que saibamos que ele existiu!”, apregoava um sábio. Eu luto para preservar esse povo.
- A que se dedicam?
- Pastoreamos rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos num reino de imensidão e de silêncio.
- O deserto é realmente tão silencioso?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.
- Que recordações de sua infância você conserva com maior nitidez?
- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos onde há água e pasto. Assim fizeram meu bisavô, meu avô e meu pai… e eu. Não havia outra coisa no mundo além disso. E eu era muito feliz com isso.
- De fato não parece muito estimulante…
- Mas é muito! Aos sete anos já deixam que você se afaste do acampamento para que aprenda coisas importantes: farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e pelas estrelas, e a deixar-se levar pelo camelo, se você se perder. Ele te levará onde há água.
- Saber isso é valioso, sem dúvida…
- Ali, tudo é simples e profundo. Existem muitas poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor.
- Então esse mundo e aquele outro são muito diferentes, não?
- Ali, cada pequena coisa nos proporciona felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali, ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já o é!
- O que mais o chocou em sua primeira viagem à Europa?
- Ver as pessoas correndo, pelo aeroporto. No deserto, só se corre quando vem uma tempestade de areia. Me assustei, é claro!
- Eles apenas iam buscar suas malas…

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