domingo, 23 de outubro de 2016

O ESTATUTO DO HOMEM

Texto de Thiago de Mello 

A
Carlos Heitor Cony

• ARTIGO I
Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira.
• ARTIGO II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
• ARTIGO III
Fica decretado que a partir deste instante haverá girassóis em todas as janelas; que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde, onde cresce a esperança.
• ARTIGO IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
PARÁGRAFO ÚNICO
O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.
• ARTIGO V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa, com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
• ARTIGO VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías: "E o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora".
• ARTIGO VII
Por decreto irrevogável, fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade e a alegria será uma bandeira generosa, para sempre desfraldada na alma do povo.
• ARTIGO VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi, e será sempre, não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
• ARTIGO IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que, sobretudo, tenha sempre o quente sabor da ternura.
• ARTIGO X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
• ARTIGO XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
• ARTIGO XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
PARÁGRAFO ÚNICO
Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
• ARTIGO XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
• ARTIGO FINAL
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
THIAGO DE MELLO
Santiago do Chile, abril de 1964.

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