quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

QUEM COMEU "MARIA PORQUINHA"?

Texto de Aloisio Guimarães

A vida é cheia de passagens hilárias, embora existam momentos de profunda tristeza. Reapresento-lhes a seguir um desses momento cômicos da minha infância, tendo como personagem principal o meu irmão mais velho, em confronto com o temperamento e o rigor que tinha o velho “Aloisio Gordinho”, como era chamado o nosso saudoso pai, na nossa educação e formação moral.
Pois bem...
Nos meados da década de sessenta, em Palmeira dos Índios, próximo à agência dos Correios e Telégrafos, vizinho à oficina mecânica do saudoso “Dudé”, morava “Geraldo Patinha”, um sujeito avermelhado, “cara de castanha”, epiléptico, bastante nervoso e sempre molhado de suor e com a barba para fazer. 
Como “Geraldo Patinha” gostava de tomar umas biritas, diariamente frequentava o “Senadinho” - o bar do meu pai, que ficava vizinho ao Aeroclube - o principal clube social da cidade. Até hoje não sabemos porque "cargas d’águas”, o nosso pai colocou este apelido no cara; talvez, motivado por algum imbróglio do dito cujo com alguma “patinha de siri”, um tira-gosto muito popular nos bares alagoanos.
Naquela época, trabalhava na casa do “Patinha” uma empregada doméstica, muito baixinha, bem gordinha, fedorenta e feia pra cacete! E como a turma não perdoa nada, colocaram o apelido na sujeita de “Maria Porquinha”, numa clara alusão à figura do suíno. Portanto, meu amigo, se alguém, um dia, mandar você imaginar uma pessoa horrível, a resposta é “Maria Porquinha”.
Era do conhecimento da rapaziada da cidade (Luiz Antônio, Jazon, João Canfifa, Tadeu Cavalcante...) que, nas horas vagas, ao término da sua jornada de trabalho, à noite, “Maria Porquinha” fazia “bico” como “piniqueira” - como eram chamadas as aquelas empregadas domésticas que “davam” em troca de uma besteira qualquer, fosse um maço de cigarros, um perfume comprado na feira ou até mesmo um sabonete Palmolive. Agora, cá para nós, era preciso ter “muita fome” ou muita “cachaça no rabo” para um sujeito aguentar comer “Maria Porquinha”!
Pois bem, certa noite, aproveitando a ausência dos donos da casa e “subindo pelas paredes”, a “Maria Porquinha”, inventou de fazer uma suruba, justamente na residência do seu patrão e, pior ainda: na cama do casal. E não é que, “bobeada” ou “anestesiada” com tanto amor que recebeu ao mesmo tempo durante a noite, a “Maria Porquinha” se esqueceu de limpar os vestígios de espermatozoides que ficaram nos lençóis da cama, após o fervoroso bacanal. Aí, meu amigo, foi o fim do mundo: ao chegar de viagem e ao se deparar com a bagunça, “Geraldo Patinha” perguntou ao seu amigo “Dudé” - o dono da oficina, seu vizinho - se ele tinha visto alguma coisa de anormal ou viu alguém entrar na sua residência, quando ele estava viajando. Como resposta, “Dudé” lhe informou:
- Geraldo, a única coisa que eu vi foi o filho do seu “Aloisio Gordinho”, em altos papos com a “Maria Porquinha”, no portão da sua casa...
Pronto! Explodiu uma bomba no “Senadinho” - o bar do meu pai - quando “Patinha” foi tomar satisfações com ele e com meu irmão, ameaçando todo mundo. Indignado com a acusação do sujeito, papai chamou meu irmão e perguntou, aos berros:
- Luiz Antônio, você comeu “Maria Porquinha”?! Você comeu a “Porquinha”, Luiz Antônio?!...
Pela entonação da voz, talvez papai pensasse até que Luiz Antônio ainda fosse “donzelo”. Coitado do meu irmão...
Nesse momento fiquei encucado porque jamais tinha ouvido uma expressão daquela. Até então, não sabia que "mulé se comia"... Inocente, eu sabia apenas que se comia feijão, arroz, cuscuz... Mas "mulé", nunca tinha ouvido falar! 
Ao ouvir os gritos do papai, cabisbaixo, pálido e pasmado, a resposta de Luiz Antônio foi uma negativa:
- Não, papai, eu não comi a “Porquinha”. Apenas, eu vinha descendo da Festa de Natal, na Praça da Independência, e ela me pediu um cigarro...
Puta que pariu! E não é que nessa hora o Luiz Antônio esqueceu que o nosso pai detestava cigarro mais do que tudo na vida tanto que, ao ouvir a sua justificativa, papai ficou possesso de raiva e nem deixou meu irmão continuar:
– Cigarro?! E você fuma, Luiz Antônio?!
Ao mesmo tempo em que proferia a indagação, papai sapecou um tabefe no “escutador de novelas” do meu irmão, sem ter dado tempo dele responder se tinha ou não comido a “Porquinha”. Até hoje, quando ele se lembra do tapa que levou nessa hora, o ouvido esquerdo de Luiz Antônio começa a zumbir...
Profundamente magoado e irritado com a invasão da sua casa, “Patinha” levou o caso à Promotoria Pública, denunciando meu irmão de vários delitos. Mas, graças à interferência do saudoso ícone da literatura palmeirense Luiz B. Torres - padrinho de Luiz Antônio - irmão do renomado promotor José Torres, a ocorrência foi amenizada na sua denúncia.
Nesse intervalo, para não ser preso, o meu irmão teve que passar uns dias fora da cidade, escondido em Minador do Negrão, em casa de parentes, até que os amigos do nosso pai domassem o “Geraldo Patinha”. E nada melhor do que o tempo para curar todas as feridas: o “Patinha” retirou a queixa, deu o caso por encerrado, mas sobrou para a coitada da “Porquinha”: perdeu o emprego.
Durante muitos anos, o meu irmão ficou conhecido na cidade como “Luiz, O Comedor de Porquinhas”. A verdade é que, entre “patinhas” e “porquinhas”, o “cacete comeu” no pé de ouvido do meu irmão que, até hoje, nega ter sido o “porco” que comeu a “Porquinha”.
Deste episódio da minha infância, duas perguntas, ainda não respondidas, tiram o meu sossego:
- Por que será que “Lisontonho” é louco por carne de porco? E se ele diz que não comeu, quem peste comeu “Maria Porquinha”? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário