domingo, 19 de março de 2017

O FIM DA ÁRVORE GENEALÓGICA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

- Mãe, vou casar!
- Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?
- Não é moça, vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.
- Você falou Murilo ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?
- Eu falei Murilo... Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
- Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva e meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.
- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...
- Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.
- Você vai ter uma nora. Só que uma nora meio macho...
- Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea... E quando eu vou conhecer o meu... A minha... O Murilo?
- Pode chamar ele de Biscoito, e o apelido.
- Tá! Biscoito... Já gostei dele. Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?
- Por quê?
- Por nada, só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.
- Você acha que o papai não vai aceitar?
- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver. Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metades com bigode!
- Mãe, que besteira. Hoje em dia, praticamente todos os meus amigos são gays.
- Só espero que tenha sobrado algum que não seja, pra poder apresentar pra tua irmã.
- A Bel já tá namorando.
- A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada. Quem é?
- Uma tal de Veruska.
- Como?!
- Veruska...
- Ah, bom! Que susto, pensei que você tivesse falado Veruska!
- Mãe!
- Tá tudo bem... Se vocês são felizes... Só fico triste porque não vou ter um neto.
- Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozoides e a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
- Ex-namorada?! O Biscoito tem ex-namorada?!
- Quando ele era hétero: a Veruska.
- Que Veruska?
- Namorada da Bel...
- "Peraí", a ex-namorada do teu atual namorado é a atual namorada da tua irmã, que é minha filha também, que se chama Bel... É isso? Porque eu me perdi um pouco...
- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.
- De quem?
- Da Bel.
- Mas, logo da Bel?! Quer dizer então que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito, com o teu espermatozoide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska?
- Isso.
- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel?
- Em termos...
- A criança vai ter duas mães, você e o Biscoito, e dois pais, Veruska e a Bel?
- Por aí...
- Por outro lado, a Bel, além de mãe, é tia... Ou tio... Porque é tua irmã?
- Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozoide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska, com o óvulo da Bel. A gente só vai só trocar, né?
- Agora o óvulo vai ser da Bel e o ventre da Veruska?
- Exato!
- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...
- Entendeu o quê?
- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!
- Que swing, mãe?!
 - É swing, sim! Uma troca de casais, com os óvulos e os espermatozoides; uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...
- Mas...
- Mas, uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior: com incesto no meio.
- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
- Sei... E quando elas quiserem ter filhos...
- Nós ajudamos.
- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozoide... A única coisa que eu entendi é que...
- Que...?
- Fazer árvore genealógica daqui pra frente, vai ser foda!

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