sexta-feira, 26 de maio de 2017

O BARBEIRO DE IGREJA NOVA

Texto de Aloisio Guimarães

Para quem não conhece o estado de Alagoas, Igreja Nova é uma pequena cidade do interior alagoano, localizada entre a histórica cidade de Penedo (às margens do Rio São Francisco) e a cidade de São Sebastião (antigo povoado Salomé, às margens do entrocamento Porto Real do Colégio/Penedo/Maceió/Arapiraca).
Como não poderia deixar de ser, Igreja Nova é uma cidade pequena, onde todo mundo conhece todo mundo e por isso mesmo a fofoca corre solta, principalmente em época eleitoral. Como não podia ser diferente, ela tem uma característica comum a toda cidadezinha do interior do Brasil: quem quiser saber "quem é quem" na cidade, é só ficar "marcando ponto" na barbearia local, porque é lá que toda a verdade aparece. Assim, durante década de 70, a barbearia "A Tesoura de Ouro", de propriedade do Robertinho, foi a fonte de informação dos fofoqueiros de Igreja Nova. Quem quisesse saber da vida dos outros, era só dar uma chegadinha por lá e perguntar:
- E aí, Robertinho, quais são as novas?
Pronto! Era um "prato cheio" para o Robertinho "rasgar o verbo", falando mal de todo mundo, "metendo o pau" em Deus e no Diabo... Muita gente boa da cidade detestava barbeiro, com um medo desgraçado da língua ferina do Robertinho.
Contam que, certo dia, em virtude das economias que fez durante os muitos anos que viveu cortando cabelo e barba, Robertinho, mesmo sendo uma "munheca de pau" (como é popularmente chamado quem não sabe dirigir direito), conseguiu comprar um fusquinha 63 que, de tão velho, já estava "queimando óleo" (quase batendo o motor).
Feliz com o seu carrinho, mas metido a besta, no primeiro final de semana, Robertinho chamou a sua esposa, a Maria José, mais conhecida com o Zefinha, e avisou:
- Mulé, ajunta as coisas aí, que vamu prá capitá...  Hoji, ocê vai cunhecê o má!
Imediatamente, Zefinha, toda ansiosa, pois nunca tinha visto o mar, atendeu às ordens do marido, mas sugeriu:
- Mô, a cumadi Quitera podi ir cum a gente? Ela é estudada e já conhece a capitá do estado e o má...
Robertinho, não gostou muito da ideia porque a sua comadre Quitéria, depois dele, era considerada a maior fofoqueira da cidade. Mas, mesmo reticente, ele atendeu ao apelo da esposa. Tão logo arrumaram as malas, se mandaram para Maceió...
Assim que o fusquinha do Robertinho chegou no Mirante do Gunga (famosa praia alagoana - cartão postal do estado), Zefinha, vendo aquela imensidão verde (a maravilhosa cor do mar alagoano), disparou:
- Vixe, Betinhu, quantu capim, hômi!
Nesse momento, Robertinho, dando uma de profundo conhecedor do mundo, ensinou:
- Num é capim não, minha fia, é o má... Muitu cuidadu, prumode qui ele é sargado!
Ao ouvir a ignorância do casal, a comadre Quitéria já estava "gozando por dentro"...
Minutos depois, já no viaduto que fica em frente ao antigo DETRAN, Robertinho, maravilhado com a visão da Praia do Sobral e da praia da Avenida da Paz, se distraiu e deu um trancão em um carro que vinha ao seu lado:
- Barbeiro! - xingaram diversas vezes os ocupantes do outro carro.
Quanto mais o chamavam de "barbeiro" (um mau motorista), Robertinho ficava orgulhoso... Nisso, vira-se para a Quitéria e comenta:
- Tá venu, cumadi Quitera? Eu tamém sô cunhicidu aqui na capitá...
- Tô vendo compadre, você é mesmo conhecido... - respondeu, com ironia, a Quitéria.
Mais adiante, quando chegaram no semáforo da Ponte do Riacho Salgadinho, Robertinho "furou" o sinal vermelho, quase provocando uma colisão. Zangado, o motorista do  outro carro, gritou:
- Corno!
Nesse momento, foi a vez da Zefinha, a mulher do Robertinho, com voz nervosa, perguntar:
- Betinhu, meu fio, né mió nois vortá logo pra casa?
Ao ouvir o que a Zefinha perguntou, Robertinho nada comentou, deu meia volta no carro e voltaram para Igreja Nova, tudo sob o riso matreiro da fofoqueira Quitéria, que logo entendeu o medo da sua comadre Zefinha.
E assim, desse dia em diante, o barbeiro Robertinho nunca mais falou mal de ninguém, principalmente da comadre Quitéria...

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