domingo, 4 de setembro de 2016

O FOFOQUEIRO

Texto de Ivone Boechat

O fofoqueiro é um tecelão juramentado in delivery à procura de meias verdades ou mentiras escancaradas que possa sair anunciando por aí pra derrubar alguém. Fofoqueiro que se preze mesmo não gosta de ver nenhuma vítima de pé, fazendo sucesso. O fofoqueiro é invejoso, mas tem outros antipredicados bem mais inexpressivos no currículo. Para cumprir a meta diária de fofoca, ele é capaz de fazer o sacrifício de parecer bonzinho. E há quem acredite e se dispõe a fazer um pacto de paz, até a decepção dar-lhe uma rasteira.
O fofoqueiro não tem pressa: fofoca hoje, fofoca amanhã, ele sabe que o importante é não perder a oportunidade. Assim sequestra a vítima com as redes da dúvida e a faz refém do disse me disse.
O fofoqueiro tem duas grandes vantagens a seu favor: a vítima não tem defesa porque ele se esconde e rói as cordas pelas costas, na penumbra. O fofoqueiro finge-se simpático, por isso é bem aceito por um bom tempo.
O fofoqueiro se faz de vítima, de ingênuo, vive travestido de coitado e consegue enganar porque é persistente: Água mole em pedra dura...
O fofoqueiro vive de plantão à procura das brechas e ninguém, como ele, sabe aproveitar as oportunidades para desestabilizar a vítima; é mascarado, logo, pode passar despercebido por algum tempo no meio das pessoas corretas.
O fofoqueiro não suporta as palavras união, paz, harmonia. Se pudesse riscaria do dicionário dos outros, porque no dele não existem. Ele não tem luz própria e usa óculos escuros para se proteger do brilho dos outros...
Toda família tem o fofoqueiro que merece. É nela que ele engorda e tem prestígio; alguns são promovidos a conselheiros; outros recebem o troféu da confiabilidade: conseguem enganar até que a verdade e a justiça cheguem de mãos dadas e acabem com a farra.
“Há alguns cujas palavras são como pontas de espada” - Pv 12:18

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MÃES SÓ MORREM QUANDO QUEREM

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez. Eu não a queria junto a mim quando chegasse à escola em meu 1º dia de aula. Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer. Poucas semanas depois descobri aliviado que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada
Quando fiz 14 anos eu a matei novamente. Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos voos juvenis. Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva foi quando ela não só me curou da ressaca, como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.
Aos 18 anos achei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição. Entrara na faculdade, iria morar em “república”, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese. Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.
Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão. Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem. Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho mãe se transformara num espécime ainda mais vigoroso chamado avó. Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla... Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar...
Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando menos esperava, ela decidiu morrer. Assim, sem mais, nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida. Ela simplesmente se foi, deixando a lição que mães são para sempre.
Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

LIÇÃO DE VIDA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Certo dia, uma mulher avistou um mendigo, sentado em uma calçada nas ruas de São Paulo. Aproximou-se dele e, como o pobre coitado já estava acostumado a ser chacoteado por todos, a ignorou…
Um policial, observando a cena, aproximou-se:
- Ele está te incomodando senhora?
Ela respondeu:
- De modo algum. Eu é que estou tentando levá-lo até aquele restaurante, pois vejo que está com fome e até sem forças para se levantar. O senhor me ajuda, senhor policial, a leva-lo até o restaurante?
Rapidamente, o policial a ajudou, e o pobre homem, mesmo assim, não querendo ir, pois não acreditava que isso estava acontecendo:
Chegando ao restaurante, o garçom, que foi atendê-los, disse sem pestanejar:
- Me desculpe, senhora, mas ele não pode ficar aqui; vai afastar os meus clientes.
A mulher abaixou e levantou os olhos e disse:
- Sabe aquela enorme empresa ali na frente? - apontou com o dedo - Três vezes por semana, os diretores de lá juntamente com clientes, vem fazer reuniões nesse restaurante, e sei que o dinheiro que deixam aqui, é o que mantém esse restaurante. Pois é, eu sou a proprietária daquela empresa. Posso fazer a refeição aqui, com o meu amigo, ou não?
O garçom fez um gesto positivo com a cabeça, o policial que estava de longe observando ficou boquiaberto, e o pobre homem, deixou cair nesse momento, uma lágrima de seus sofridos olhos.
Quando o garçom se afastou, o homem perguntou:
- Obrigado, senhora, mas não entendo esse gesto de bondade...
Ela segurou em suas mãos e disse:
- Não se lembra de mim, João?
- Me parece familiar - respondeu - mas não me lembro de onde...
Ela, com lágrimas nos olhos, disse:
- Tempo atrás, eu, recém-formada, vim para São Paulo, sem nenhum dinheiro no bolso… Estava com muita fome e me sentei naquela praça, aqui em frente, porque tinha uma entrevista de emprego naquela empresa, onde hoje é minha. Quando se aproximou de mim um homem com um olhar generoso... Se lembra agora, João?
Ele, em lágrimas, afirmou que sim.
- Na época, o senhor trabalhava aqui. Naquele dia, fiz a melhor refeição da minha vida, pois estava com muita fome, e até sem forças. Toda hora, eu olhava para o senhor, pois estava com medo de prejudica-lo, pois estava ali comendo de graça. Foi quando vi o senhor tirando dinheiro do seu bolso e colocando no caixa do restaurante. Fiquei mais aliviada. E sabia que m dia poderia retribuir. Me alimentei, fui com mais forças para a minha entrevista. Na época, a empresa ainda era pequena… Passei na entrevista, me especializei, ganhei muito dinheiro, acabei comprando algumas ações da empresa e, com o passar do tempo, consegui virar a proprietária e fazer a empresa ser o que ela é hoje. Procurei pelo senhor, mas nunca o encontrei até que, hoje, o vi nessa situação. Hoje, o senhor não dorme mais na rua, vai comigo para a minha casa. Amanhã, compraremos roupas novas e o senhor vai vir trabalhar comigo…
Se abraçaram, chorando.
O policial, o garçom e os demais, que viam essa cena, se emocionaram diante da grande lição de vida, que tinham acabado de presenciar.