domingo, 27 de novembro de 2016

A CAUSA É PÉTREA

Texto de Rubens Mário
  PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

O Brasil vivencia uma das suas piores crises, econômica, financeira, e, sobretudo, moral. Até os estados mais poderosos fincados em regiões privilegiadas - sul e sudeste - Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, estão em situação de falência. Essa semana o governo gaúcho já decretou estado de calamidade financeira. Naquele rincão, que, em épocas passadas cogitou até se separar do resto do país, os salários dos servidores públicos são pagos parcelados, e, os criminosos pobres, algemados em lixeiras no meio da rua, por falta de espaço nas delegacias.  No Rio, a situação é ainda mais grave. Os servidores também estão com salários atrasados, e, dois recentes governadores foram presos por desfalques milionários. Um deles - Sérgio Cabral - está sendo acusado de roubos do dinheiro público, calculados em mais de 200 milhões de reais.  O outro - Garotinho - foi acusado de praticar, crime eleitoral (compra de votos), peculato, e lavagem de dinheiro. Em 2010, a Justiça Federal já o havia condenado a 2 anos de prisão por formação de quadrilha, ficando proibido de exercer cargos públicos e mandato eletivo. Mas, porém, todavia, contudo, o mesmo, “para variar, foi privilegiado com a reversão da pena, em serviços comunitários. Ainda para variar, como a decisão foi proferida em 1ª instância, ele ficou livre para candidatar-se naquele mesmo ano, e, pasmem! Se eleger à câmara federal, com uma votação recorde! Pasmem, mais uma vez! Três anos depois, agora, junto com a sua esposa e comparsa, Rosinha Garotinho, foi novamente denunciado, dessa vez, pelo, então, Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, por suspeita de desviarem R$650.000,00 do estado do Rio de Janeiro.
Tomando como exemplos, apenas os casos envolvendo os três personagens da “cidade maravilhosa”, vejam quantos absurdos envolvidos! Essas aberrações judiciais e sociais, nos dão uma pequena amostra das aviltantes gêneses dessa incoerente crise econômica e financeira que agride a sociedade brasileira. Vamos raciocinar! Primeiro, como poderia ser permitido a um elemento com tantas acusações, e, até, uma condenação, se candidatar à cargos públicos tão importantes? Depois, como a população de um estado que tanto já nos chacoteou em caso semelhante, elege, de forma contundente, um casal de marginais? Nesse episódio, à exemplo de centenas de outros pelo país afora, há algo muito delicado a ser apurado, rigorosamente, pela nossa sociedade organizada! Alguma coisa está, grosseiramente, errada em nossa democracia! Ou, o povo, contrastando as apurações e decisões judiciais, não acredita na nossa justiça, ou, está contaminado pelo vírus da roubalheira e da safadeza! Prefiro acrescentar uma outra opção - a troca da educação básica por favores eleitorais! Não adianta construir pontes mirabolantes, se os rios estão mortos! Visitem os cursos de medicina nas nossas universidades e vejam quantos negros e pobres estão lá! Inclusive, nativos!
Os outros estados da federação, mormente, os das regiões norte e nordeste, também padecem do mesmo mal. O nosso estado, digo, a nossa população, também é vítima e ré inconscientes, dessa terrível epidemia. Por isso, hoje, também, continuamos asfixiados, com inúmeros corruptos processados exercendo altos cargos públicos, com um comércio descontinuado, escolas públicas apenas de portas abertas, o tráfico governando as comunidades mais pauperizadas, e, a violência banalizada, em todos os seus níveis e vertentes, e com todas as suas derivações.
Como consertar tudo isso? Voltar atrás é impossível! O pior é que, os privilégios são pétreos! A pobreza é pétrea! O desvalor da educação básica é pétreo! A corrupção é pétrea! Os poderosos de cada região são pétreos! A PEC 241, também vai ser pétrea! Já os nossos direitos! Serão sempre débeis, inconsistentes e parciais.

sábado, 26 de novembro de 2016

EM FOGO BRANDO

Texto de Myrthes Mazza Masiero


Enquanto escolho os feijões,
Sem querer faço alusões:
Um grão ... dois... e enfim,
Não sobra tempo pra mim! 

Corro pra lavar o arroz,
Deixo a mágoa pra depois.
Enquanto lavo as verduras,
Me frito em conjeturas... 

Enquanto escorro os legumes
Vou ruminando os queixumes
Enquanto tempero a carne
Sinto ligar meu alarme... 

Enquanto destrincho o frango,
Fervo a raiva em fogo brando
Enquanto aqueço a gordura,
Unto as minhas queimaduras. 

Enquanto o fogo se mantém,
Santo Deus! Sou uma refém...
Enquanto misturo os molhos
Cascas de sonho, recolho. 

Enquanto a salada esfria
Asso a vida em banho-maria
Na hora de pôr a mesa
É que refogo a tristeza 

Mas quando sirvo o cozido...
Ah! Nem tudo está perdido!
 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

POEMA EM LINHA RETA

Texto de Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes na vida… 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ò príncipes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza