sábado, 14 de outubro de 2017

A FILHA DO SEU IRMÃO

Texto de Carlito Lima

Ramiro é um sessentão bonito, mulherengo irrecuperável, mesmo com mais de 30 anos de casado é chegado a uma aventura, gosta de garota de programa. Nas sextas-feiras não dispensa uma matinê com uma bonita jovem.
Certa manhã folheou o jornal na seção de acompanhantes, escolheu a anunciante: “Jandira, morena, 20 anos, esguia, universitária, seletiva. 9.8881-XXXX”. Marcou encontro na orla. Ao se reconhecerem, a morena entrou no carro com muita classe e ares de princesa. Ramiro ficou feliz em vê-la.
Na suíte máster ao ficar à vontade a jovem fez ferver o sangue nas veias do coroa. Como dois animais se entregaram ao melhor exercício físico do corpo humano. Durante o intervalo, no relaxe da hidromassagem, tomando um uísque, Ramiro provocou.
- Conte sua vida, menina.
Jandira havia gostado do alegre acompanhante, não se fez de rogada:
- Minha vida é uma novela. Meu marido fugiu com minha melhor amiga, deixou-me apenas uma filha de quatro anos. Faço programa para poder pagar a faculdade e o sustento da criança. Embora eu seja filha de um homem rico.
Continuou sua história:
- Minha mãe era pobre, filha de lavadeira, morava na Chã da Jaqueira. Quando jovem era linda de chamar atenção, todos os homens do bairro queriam namorá-la. O cabo Alcides do destacamento ficou perdidamente apaixonado, se declarava quando podia. Para ajudar em casa mamãe foi trabalhar numa residência de um fazendeiro na Jatiúca. O senhor mantinha a casa para os filhos, dois rapazes e uma moça, estudarem na capital. Os pais vinham à Maceió nos fins de semana. Com a convivência entre os jovens foram rolando brincadeiras, agarrados, até que um dia aconteceu o inevitável, o filho mais velho deflorou minha mãe e engravidou. Um desassossego, minha avó não deixou abortar. Para acomodar a situação minha mãe casou-se com o cabo de polícia apaixonado. Eu nasci e fui criada por um pai decente. O cabo Alcides morreu quando eu tinha dez anos, baleado por um bandido. Mamãe ficou sozinha nesse mundo trabalhando como lavadeira, copeira, faxineira para me sustentar. Só me revelou sobre meu pai verdadeiro quando fiz 14 anos, nas vésperas de morrer de câncer. Fiquei sozinha no mundo, fui morar com uma tia. Eu ainda piveta comecei a namorar um menino, vizinho. O diabo atentou, fiquei grávida. Casei e fui mãe com 16 anos de idade. Minha filha, Paula, é linda e por ela faço todo sacrifício. Felizmente tenho muita raça, estudei e consegui entrar na Faculdade de Direito à noite. Trabalho numa loja no Shopping. Minha sorte é que não pago aluguel moro num apartamento do meu ex-sogro, ele me cedeu, porque adora a neta, Paulinha. Faço alguns programas, tenho certeza que um dia me livro disso.
Ramiro tomava o uísque, interessado na história de Jandira, perguntou:
- E seu pai verdadeiro, você já esteve com ele? Ele sabe de sua existência?
- Esse é o problema... Certa vez tomei coragem, resolvi encará-lo, descobri seu escritório, esperei, fui recebida por ele. Quando contei minha história, meu pai se comoveu, queria saber mais detalhes. Eu constrangida e orgulhosa saí correndo. Nunca mais o procurei.
Ramiro emocionado perguntou:
- Por acaso, o nome de seu pai verdadeiro é Ronaldo?
Jandira chocou-se e confirmou assustada:
- É sim. Como você sabe?
Ramiro tomou um golaço de uísque e olhando nos olhos da morena, perguntou:
- Como era o nome de sua mãe?
- Bartira...
- É muita coincidência. Você não vai acreditar, conheço a história, lembro como se fosse hoje da Bartira, era bonita sua mãe. Prepare-se para maior surpresa de sua vida. Ronaldo é meu irmão. Eu sou seu tio, Jandira.
Ela emocionada levantou-se da banheira, enrolou-se em uma toalha, atordoada com a descoberta, foi perguntando:
- Você tem certeza do que está dizendo? Não posso acreditar.
Acabou-se o clima sensual, conversaram a tarde toda. Ramiro resolveu ajudá-la.
Dia seguinte Ramiro conversou e preparou o irmão, inventou uma história omitindo o motel. Marcaram um encontro, foi emocionante. Depois de alguns dias, muita conversa e do DNA, Ronaldo assumiu a paternidade.
Bethânia, seu nome verdadeiro, continua trabalhando no Shopping. Seu pai dá-lhe uma mesada. Ela deixou a vida de programa.
A esposa e os filhos de Ronaldo, depois do choque inicial, aceitaram a paternidade comprovada pelo DNA. A pequena Paulinha, a neta, é a alegria da família.
Quando Ramiro encontra a sobrinha se olham com carinho. Entretanto, ele não consegue apagar da mente a tarde de intenso amor com a filha de seu irmão.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

TRATAMENTO DE CHOQUE

Texto de Aloisio Guimarães

Desde meus tempos de juventude que os cabelos brancos começaram a tomar conta da minha cabeça. Por conta disso, apesar dos meus 62 anos, aparento ter mais idade do que realmente tenho.
Determinado arquiteto, com quem já mantive relações profissionais, muito mais do que pessoais, é uma daquelas pessoas que logo se julga íntimo de todos. Nada de grave nisso. O chato é quando as brincadeiras de intimidade, mesmo que sadias, são em lugares inapropriados.
Pois bem, todas as vezes ele me encontrava, fazendo alusão clara aos meus cabelos e barba brancos, gritava:
- Ô, Papai Noel, como vai?
Não importava lugar, hora e companhia de nenhum de nós dois; o cumprimento dele para comigo era sempre este.
Lógico que isso foi irritando...
Em um dos domingos do mês de dezembro do ano passado, justamente perto do Natal, fomos almoçar no shopping (eu, minha mulher e minha filha). Mês de dezembro, perto do Natal, Praça de Alimentação lotada de famílias... Em determinado instante, ouvi um grito:
- Ô, Papai Noel, como vai?
Era ele, metido a engraçado como sempre!
Acontece que, nesta ocasião, ele também estava na companhia da sua esposa e da sua filha. E, como neste dia eu tinha “acordado com o ovo virado", respondi bem alto e com todas as letras, para que todos também ouvissem:
- Vem cá, filhinho! Senta aqui, no colinho do Papai Noel. Vem tirar um retratinho... Senta aqui, você vai adorar!
Ele perdeu a graça, fechou a cara e por um bom tempo não me chamou de Papai Noel.
Foi um santo remédio!
Como o brasileiro tem memória curta, ele já começa de novo...
Até quando?  Até o próximo convite para um retratinho.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

DESEJO PRESO

Texto de Carlito Lima

O baiano Antônio Firmino viajou para rever amigos, colegas de turma de Engenharia em Maceió. Na manhã do sábado, enquanto esperava um amigo no saguão do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, achegou-se. O coração disparou, e a memória trouxe a imagem de uma adolescente alegre, bonita, ensaiava e dançava o rock nas festas. Madrinha de formatura, sua doce e inesquecível namorada. Firmino chamou-a pelo nome:
- Tereza!
Surpresa, ela aproximou-se, o sangue ferveu-lhe, explodiu o coração ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela e da alma.
- Firmino! Não é possível!
Abraçaram-se longamente, 40 anos de lembranças, sentimentos e desejos presos. Arrefecidos os ânimos, sentaram-se no sofá sorrindo um para outro. Lágrimas presas nas faces de Tereza. Num relance, Antônio Firmino fez uma análise visual de sua ex-namorada. Tornou-se uma bela e apetitosa sessentona, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto delicado, olhos vivos brilhavam até pela emoção. Tereza interrompeu sua redescoberta:
- O que está olhando? Eu estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.
Conversaram bastante, Antônio resumiu sua vida, ainda trabalhava em construção, continuava morando em Salvador, estava em viagem solitário à Maceió para pensar na vida depois da morte da esposa, companheira de mais de 30 anos, há quatro meses. Foi bem casado, mas nunca havia esquecido aquele amor juvenil, puro e bonito da alagoana. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, também resumiu sua vida, separou-se há três anos depois que lhe apareceu um câncer no seio, mas tem dois filhos e dois netos. Luta bravamente contra a doença maligna, cortou um seio, parece que conseguiu vencer, os últimos exames estavam ótimos. A perspectiva da morte transformou sua cabeça. Recomeçou a viver intensamente nesses últimos anos, por conta disso ficou má vista entre fuxiqueiros, o que pouco importa, a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama viver o que me resta.
Nesse momento apareceu Luciano, vinha buscá-lo. Cumprimentaram-se, ela o conhecia. Tereza perguntou onde era o almoço, ficou de telefonar para Firmino. Passava um pouco das quatro horas, Antônio acompanhado de doze colegas de turma de Engenharia com esposas no restaurante se refestelavam de lagosta, peixe e camarão. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente apareceu Tereza, cumprimentou os casais, puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Antônio, cochichou no seu ouvido:
- Não lhe largo mais.
O almoço terminou tarde. Chegaram ao hotel às oito da noite de pilequinho, cantando antigas canções. No elevador se beijaram. Depois de um demorado banho se amaram como se o mundo fosse acabar. A ajuda azul foi determinante. Antônio Firmino ficou surpreso com o desempenho de Tereza, parecia uma loba no cio.
Toalhas na cintura, sentados no tapete, garrafa de uísque, os dois se abriram contando histórias de suas vidas. Tereza certa hora confessou que depois do tratamento do câncer, tomou muito hormônio, aguçou a libido, o sexo. Despertou-lhe uma inevitável necessidade de sexo. Alguns chamam de compulsão, é o pecado capital da Luxúria. Ela gosta de ser assim, só depois da separação e ver a morte perto teve a coragem de se desprender dos preconceitos. Durante o casamento foi correta com o marido, o amor burocrático a satisfazia.
Inesperadamente apareceu Firmino, namorado de sua juventude quando a virgindade era preservada e os desejos eram presos. Jamais ele saiu de suas lembranças e também do coração.  Dormiram agarrados.
Amanheceu o domingo, Antônio Firmino acordou-lhe com um beijo no rosto. Ela abraçou-o, se amaram. Passaram o domingo na cama e na varanda conversando e se amando, curtindo a fascinante vista do mar do Maceió. Continuaram quatro dias de amor sem sair do apartamento do hotel, comendo, bebendo, conversando, sorrindo, se amando felizes daquele encontro meio maluco, acidental. Nem o vício de Tereza em caminhar na orla, aconteceu. Até que chegou a quarta-feira ingrata, Firmino deixaria o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14 horas para Salvador, havia necessidade urgente de sua presença no escritório. Tereza o acompanhou até o aeroporto, sentada bem junto, o carro deslizava pela grande avenida. Num impulso ela o abraçou e beijou. Dirigindo e sorrindo ele pedia à amada, cuidado e juízo. Antônio estava às alturas de tanta excitação. Ao parar num sinal vermelho, um carro com três senhoras parou justaposto. As madames perceberam o que eles estavam fazendo, ficaram escandalizadas, fizeram o sinal da cruz, balançaram a cabeça repreendendo aquela falta de vergonha. O semáforo fez-se verde, Antônio acelerou, ao mesmo tempo saiu um gemido e um grito:
- Sua maluca...
Continuaram correndo na avenida às gargalhadas. Na hora do embarque despediram-se, beijos e lágrimas. Tereza ficou na varanda contemplando o avião decolar, a saudade bateu forte. Está programando viagem à Bahia necessidade em rever aquele amor, o mais puro de sua juventude. Juventude que ainda possui em seu corpo sessentão marcado pelo câncer. E soltar seus desejos que antigamente, há anos eram presos.