segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DE ERNANI

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Certa vez, trabalhei em uma pequena empresa de engenharia. Foi lá que fiquei conhecendo um rapaz chamado Mauro. Ele era grandalhão e gostava de fazer brincadeiras com os outros, sempre pregando pequenas peças. Havia também o Ernani, que era um pouco mais velho que o resto do grupo. Sempre quieto, inofensivo, à parte, Ernani costumava comer o seu lanche sozinho, num canto da sala. Ele não participava das brincadeiras que fazíamos após o almoço, sendo que, ao terminar a refeição, sempre sentava sozinho debaixo de uma árvore mais distante. Devido a esse seu comportamento, Ernani era o alvo natural das brincadeiras e piadas do grupo. Ora ele encontrava um sapo na marmita, ora um rato morto em seu chapéu. E o que achávamos mais incrível é que ele sempre aceitava aquilo sem ficar bravo.
Em um feriado prolongado, Mauro resolveu ir pescar no Pantanal. Antes, nos prometeu que, se conseguisse sucesso, iria dar um pouco do resultado da pesca para cada um de nós.
No seu retorno, ficamos todos muito animados quando vimos que ele havia pescado alguns dourados enormes. Mauro, entretanto, levou-nos para um canto e nos disse que tinha preparado uma boa peça para aplicar no Ernani. Mauro dividira os dourados, fazendo pacotes com uma boa porção para cada um de nós. Mas, a 'peça' programada era que ele havia separado os restos dos peixes num pacote maior, à parte.
- Vai ser muito engraçado quando o Ernani desembrulhar esse 'presente' e encontrar espinhas, peles e vísceras! - disse-nos Mauro, que já estava se divertindo com aquilo.
Mauro então distribuiu os pacotes no horário do almoço. Cada um de nós, que ia abrindo o seu pacote contendo uma bela porção de peixe, então dizia:
- Obrigado!
Mas o maior pacote de todos, ele deixou por último. Era para o Ernani. Todos nós já estávamos quase explodindo de vontade de rir, sendo que Mauro exibia um ar especial, de grande satisfação.
Como sempre, Ernani estava sentado sozinho, no lado mais afastado da grande mesa. Mauro então levou o pacote para perto dele, e todos ficamos na expectativa do que estava para acontecer.
Ernani não era o tipo de muitas palavras. Ele falava tão pouco que, muitas vezes, nem se percebia que ele estava por perto. Em três anos, ele provavelmente não tinha dito nem cem palavras ao todo. Por isso, o que aconteceu a seguir nos pegou de surpresa. Ele pegou o pacote firmemente nas mãos e o levantou devagar, com um grande sorriso no rosto. Foi então que notamos que seus olhos estavam brilhando. Por alguns momentos, o seu pomo de Adão se moveu para cima e para baixo, até ele conseguir controlar sua emoção.
- Eu sabia que você não ia se esquecer de mim - disse com a voz embargada - eu sabia, você é grandalhão e gosta de fazer brincadeiras, mas sempre soube que você tem um bom coração.
Ele engoliu em seco novamente, e continuou falando, dessa vez para todos nós.
- Eu sei que não tenho sido muito participativo com vocês, mas nunca foi por má intenção. Sabem... Eu tenho cinco filhos em casa, e uma esposa inválida, que há quatro anos está presa na cama. E estou ciente de que ela nunca mais vai melhorar. Às vezes, quando ela passa mal, eu tenho que ficar a noite inteira acordado, cuidando dela. E a maior parte do meu salário tem sido para os seus médicos e os remédios. As crianças fazem o que podem para ajudar, mas tem sido difícil colocar comida para todos na mesa. Vocês talvez achem esquisito que eu vá comer o meu almoço sozinho, num canto... Bem, é que eu fico meio envergonhado, porque na maioria das vezes eu não tenho nada para pôr no meu sanduíche. Ou, como hoje, eu tinha somente uma batata na minha marmita. Mas eu quero que saibam que essa porção de peixe representa, realmente, muito para mim. Provavelmente muito mais do que para qualquer um de vocês, porque hoje à noite os meus filhos... - ele limpou as lágrimas dos olhos com as costas das mãos -hoje à noite os meus filhos vão ter, realmente, depois de alguns anos...
E ele começou a abrir o pacote...
Nós tínhamos estado prestando tanta atenção no Ernani, enquanto ele falava, que nem havíamos notado a reação do Mauro. Mas agora, todos nós percebemos a sua aflição quando ele saltou e tentou pegar o pacote das mãos do Ernani. Mas era tarde demais. Ernani já tinha aberto e pacote e estava, agora, examinando cada pedaço de espinha, cada porção de pele e de vísceras, levantando cada rabo de peixe.
Era para ter sido tão engraçado, mas ninguém riu. Todos nós ficamos olhando para baixo. E a pior parte foi quando Ernani, tentando sorrir, falou a mesma coisa que todos nós havíamos dito anteriormente:
- Obrigado!
Em silêncio, um a um, cada um dos colegas pegou o seu pacote e o colocou na frente do Ernani, porque depois de muitos anos nós havíamos, de repente, entendido quem era realmente o Ernani.
Uma semana depois, a esposa de Ernani faleceu. Cada um de nós, daquele grupo, passou então a ajudar as cinco crianças.
Graças ao grande espírito de luta que elas possuíam, todas progrediram muito: Carlinhos, o mais novo, tornou-se um importante médico. Fernanda, Paula e Luisa montaram o seu próprio e bem-sucedido negócio: elas produzem e vendem doces e salgados para padarias e supermercados. O mais velho, Ernani Júnior, formou-se em Engenharia; sendo que, hoje, é o Diretor Geral da mesma empresa em que eu, Ernani e os nossos colegas trabalhávamos.
Mauro, hoje aposentado, continua fazendo brincadeiras; entretanto, são de um tipo muito diferente: ele organizou nove grupos de voluntários que distribuem brinquedos para crianças hospitalizadas e as entretêm com jogos, estórias e outros divertimentos.
Às vezes, convivemos por muitos anos com uma pessoa, para só então percebermos que mal a conhecemos. Nunca lhe demos a devida atenção; não demonstramos qualquer interesse pelas coisas dela; ignoramos suas ansiedades ou seus problemas.
Pense nisso!

sábado, 16 de novembro de 2019

ESPÍRITO EVOLUÍDO

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Há alguns anos, nas Olimpíadas Especiais de Seattle, EUA, nove participantes, todos portadores de deficiência mental, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos.
Ao sinal, eles partiram, não muito rápidos, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar.
Passados alguns segundos, um dos garotos tropeçou no asfalto, caiu e começou a chorar. Os outros oito, quando ouviram o choro, diminuíram o passo e olharam para trás. Então viraram e voltaram. Todos eles...
Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou, deu um beijo no garoto e disse:
- Pronto, agora vai sarar!
E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada.
O estádio inteiro levantou e os aplausos duraram muitos minutos…
Talvez os atletas fossem portadores de deficiência mental, mas, com certeza, não eram deficientes espirituais. Isso porque, lá no fundo, todos nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir os nossos passos.
Moral da História:
Procure ser uma pessoa de valor, em vez de procurar ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é consequência.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

A MORTE DE UM INOCENTE

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Eu fui a uma festa, mãe. Eu lembrei do que você me disse. Você me disse para eu não beber, e eu não bebi, mãe. Eu me senti orgulhosa de mim como você me disse que eu me sentiria.
Antes de dirigir, eu não bebi, mãe, embora alguns amigos insistissem para que eu bebesse, eu não bebi. Eu agi certo, mãe, e sei que você sempre esteve certa.
A festa foi acabando, mãe, e os amigos foram saindo. Quando eu entrei no carro eu acreditei que logo chegaria em casa e inteira, mãe! Isso por causa do jeito responsável e doce que você me criou. Eu dei partida, mãe, e assim que entrei na avenida, um outro carro não me viu, bateu forte e eu fui lançada para fora. Aqui, no solo da avenida, enquanto o socorro não vinha, eu escutei um policial dizer que o outro motorista estava bêbado. E agora sou quem pago por isso. Estou morrendo aqui, mãe. Eu gostaria que você chegasse logo.
Como isso pôde me acontecer, mãe? Minha vida simplesmente se queimar como um balão? Há sangue por toda parte, mãe, e a maior parte deste sangue é o meu sangue. E agora eu escuto o médico dizer que morrerei em poucos minutos. Eu só queria lhe dizer, mãe, jurar que não bebi. Os outros, sim. Mãe, eles não pensaram. Aquele que me atingiu provavelmente estava na mesma festa que eu. A diferença, mãe, é que ele bebeu e sou eu quem vai morrer.
Por que existe gente assim, mãe? Eles não percebem que podem arruinar a própria vida?
Estou sentindo dores agudas, mãe. O cara que me atingiu está andando e eu não consigo achar isso justo. Eu morrendo aqui e tudo o que ele faz é ficar ali parado me olhando.
Diga ao meu irmão para não chorar e para o papai não ficar bravo comigo. E quando eu partir, mãe, ponha flores no meu sepulcro. Alguém deveria ter avisado a este cara para não beber antes de dirigir. Se ele não tivesse bebido, eu ainda poderia continuar viva. Minha respiração está enfraquecendo, mãe. Estou ficando com medo.
Por favor, não chore por mim. Sempre que precisei, você não falhou. Eu só tenho uma última pergunta antes de me despedir:
Eu não bebi antes de dirigir, então por que sou eu quem vai morrer?
Este é o fim. Eu gostaria de poder olhar nos seus olhos para dizer estas palavras finais:
- Eu te amo. Adeus.