sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

DIREITOS HUMANOS

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Contam que uma senhora americana escreveu várias cartas ao governo reclamando do tratamento dados aos presos na Baía de Guantánamo, Cuba. 
Tempo depois, ela recebeu a seguinte resposta:
Cara e preocupada cidadã,
Muito obrigado pelas suas recentes cartas contendo críticas ao modo como tratamos os presos atualmente nas prisões da baía de Guantánamo, em Cuba.
Nossa administração trata tais assuntos com seriedade e a sua opinião foi ouvida em alto e bom som aqui, em Washington. A senhora adorará saber que graças às preocupações de cidadãos, como a senhora, nós estamos criando uma nova divisão do Programa de Reeducação de Terroristas que vai chamar-se "Programa de Aceitação Liberal e Espontânea de Responsabilidade Moral por Assassinos", ou seja, "Terrorista Adotivo".
De acordo com as premissas desse novo programa, decidimos alojar um terrorista sob seus cuidados pessoais.
Seu prisioneiro pessoal foi selecionado e o seu transporte, até a sua casa, foi programado para ser feito, sob escolta, pesadamente armada, na próxima segunda-feira. Ali Mohammed Ahmed bin Mahmud (pode chamá-lo simplesmente de Ahmed) está destinado a ser tratado pela senhora com o sentido de se obter os padrões que a senhora pessoalmente tanto exigiu em suas cartas.
Provavelmente será necessário que a senhora contrate alguns vigilantes para assisti-lo. Faremos inspeções semanais para nos certificarmos de que os seus padrões de tratamento estão compatíveis com os que a senhora tão veementemente recomendou em suas cartas.
Muito embora Ahmed seja um sociopata extremamente violento, esperamos que a sua sensibilidade ao que descreveu como seu “problema de atitude” possa superar tais falhas de caráter.
Talvez a senhora esteja certa ao descrever estes problemas como meras “diferenças culturais”.
Compreendemos que a senhora certamente planeja oferecer-lhe aconselhamento e escolaridade.
Seu “terrorista adotivo” é extremamente proficiente em combate corpo a corpo e pode tirar uma vida humana com coisas tão simples como um lápis, um prego ou um clipe.
Aconselhamos que a senhora não peça a ele para demonstrar tais habilidades ao grupo de ioga a que pertence.
Ele também é perito em produzir uma ampla variedade de mecanismos explosivos a partir de produtos domésticos comuns, de modo que a  senhora, talvez, deseje guardar esses itens em local bem trancado, a menos que, em sua opinião, isto possa ofendê-lo.
Ahmed não irá querer interagir com a senhora ou com suas filhas (exceto sexualmente), uma vez que ele considera as mulheres como formas sub-humanas de propriedade. Este é um ponto particularmente sensível para ele e, por isso, ele é conhecido por seu comportamento violento em relação às mulheres que não conseguem se submeter ao seu código de vestuário, que ele recomenda como o mais apropriado a ser adotado. Estamos certos de que vai apreciar a anonimidade proporcionada pela “burka” com o passar do tempo. Lembre-se apenas de que tudo faz parte do “respeito à sua cultura e às suas crenças religiosas”! Não foi assim que a senhora colocou o problema?
Obrigado, mais uma vez, pelas suas cartas. Nós realmente apreciamos quando pessoas, como a senhora, nos mantém informados sobre a melhor maneira de conduzirmos o nosso trabalho. Dispense ao Ahmed o melhor dos seus cuidados e lembre-se: estaremos de olho.
Boa sorte!
Cordialmente,
Seu amigo
SECRETÁRIO DA DEFESA
Aqui, no Brasil, será que os simpatizantes do MST, por exemplo, aceitariam contribuir para o sucesso de programas do tipo "Doe um pedaço do seu terreno a um sem terra" ou "Adote um sem teto em sua casa"?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ONDE FOI PARAR O TEMPO?

Texto de Marcelo Canellas

- Onde foi parar o tempo que ganhamos?
Havia mais terrenos baldios, menos canais de televisão, mais cachorros vadios e menos carros na rua. Havia carroças na rua e carroceiros fazendo o pregão dos legumes. Mascates batendo de porta em porta e mendigos pedindo pão velho (por que os mendigos não pedem mais pão velho?). A Velha do Saco assustava as crianças. O saco era de estopa. Não havia sacos plásticos. Levávamos sacolas de palha para o supermercado e cascos vazios para trocar por garrafas cheias. Refrigerante era caro; só tomávamos no fim de semana. As latas de cerveja eram de lata mesmo, não eram de alumínio. Leite vinha num saco ou, então, o leiteiro entregava em casa, em garrafas de vidro. Cozinhava-se com banha de porco; toda dona-de-casa tinha uma lata de banha debaixo da pia. O barbeador era de metal e a lâmina era trocada de vez em quando, mas só a lâmina. As camas tinham suporte para mosquiteiro. As casas tinham quintais; os quintais tinham sempre uma laranjeira, ou uma pereira, ou um pessegueiro, e comíamos fruta no pé. Minha vó tinha fogão a lenha; compotas caseiras, abarrotando a despensa, chimia de abóbora; uvada, e pão de casa. Meu pai tinha um amigo que fumava palheiro. Era comum fumar palheiro na cidade; tinha-se mais tempo para picar fumo. Fumo vinha em rolo e cheirava bem. O café passava pelo coador de pano (as ruas cheiravam a café); chaleira apitava (o que há com as chaleiras de hoje que não apitam?). As lojas de discos vendiam “long plays” e “fitas K7”. Supimpa era ter um três-em-um: toca-disco, toca-fita e rádio AM (não havia FM). Dizia-se “supimpa”, que significa “bacana”. Pois é, dizia-se “bacana", saca? Os telefones tinham disco. Discava-se para alguém. Depois, punha-se o aparelho no gancho. Telefone tinha gancho. E fio. Se o seu filho estivesse no quarto dele e você no seu escritório, você dava um berro pra chamar o guri, em vez de mandar um e-mail ou um recado pelo MSN.
Estou falando de outro milênio, é verdade. Mas o século passado foi ontem! Isso tudo acontecia há apenas 20 ou 25 anos, não mais do que o espaço de uma geração. A vida ficou muito melhor. Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso.
- Então por que engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados? Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada? Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

A HISTÓRIA DE ERNANI

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Certa vez, trabalhei em uma pequena empresa de engenharia. Foi lá que fiquei conhecendo um rapaz chamado Mauro. Ele era grandalhão e gostava de fazer brincadeiras com os outros, sempre pregando pequenas peças. Havia também o Ernani, que era um pouco mais velho que o resto do grupo. Sempre quieto, inofensivo, à parte, Ernani costumava comer o seu lanche sozinho, num canto da sala. Ele não participava das brincadeiras que fazíamos após o almoço, sendo que, ao terminar a refeição, sempre sentava sozinho debaixo de uma árvore mais distante. Devido a esse seu comportamento, Ernani era o alvo natural das brincadeiras e piadas do grupo. Ora ele encontrava um sapo na marmita, ora um rato morto em seu chapéu. E o que achávamos mais incrível é que ele sempre aceitava aquilo sem ficar bravo.
Em um feriado prolongado, Mauro resolveu ir pescar no Pantanal. Antes, nos prometeu que, se conseguisse sucesso, iria dar um pouco do resultado da pesca para cada um de nós.
No seu retorno, ficamos todos muito animados quando vimos que ele havia pescado alguns dourados enormes. Mauro, entretanto, levou-nos para um canto e nos disse que tinha preparado uma boa peça para aplicar no Ernani. Mauro dividira os dourados, fazendo pacotes com uma boa porção para cada um de nós. Mas, a 'peça' programada era que ele havia separado os restos dos peixes num pacote maior, à parte.
- Vai ser muito engraçado quando o Ernani desembrulhar esse 'presente' e encontrar espinhas, peles e vísceras! - disse-nos Mauro, que já estava se divertindo com aquilo.
Mauro então distribuiu os pacotes no horário do almoço. Cada um de nós, que ia abrindo o seu pacote contendo uma bela porção de peixe, então dizia:
- Obrigado!
Mas o maior pacote de todos, ele deixou por último. Era para o Ernani. Todos nós já estávamos quase explodindo de vontade de rir, sendo que Mauro exibia um ar especial, de grande satisfação.
Como sempre, Ernani estava sentado sozinho, no lado mais afastado da grande mesa. Mauro então levou o pacote para perto dele, e todos ficamos na expectativa do que estava para acontecer.
Ernani não era o tipo de muitas palavras. Ele falava tão pouco que, muitas vezes, nem se percebia que ele estava por perto. Em três anos, ele provavelmente não tinha dito nem cem palavras ao todo. Por isso, o que aconteceu a seguir nos pegou de surpresa. Ele pegou o pacote firmemente nas mãos e o levantou devagar, com um grande sorriso no rosto. Foi então que notamos que seus olhos estavam brilhando. Por alguns momentos, o seu pomo de Adão se moveu para cima e para baixo, até ele conseguir controlar sua emoção.
- Eu sabia que você não ia se esquecer de mim - disse com a voz embargada - eu sabia, você é grandalhão e gosta de fazer brincadeiras, mas sempre soube que você tem um bom coração.
Ele engoliu em seco novamente, e continuou falando, dessa vez para todos nós.
- Eu sei que não tenho sido muito participativo com vocês, mas nunca foi por má intenção. Sabem... Eu tenho cinco filhos em casa, e uma esposa inválida, que há quatro anos está presa na cama. E estou ciente de que ela nunca mais vai melhorar. Às vezes, quando ela passa mal, eu tenho que ficar a noite inteira acordado, cuidando dela. E a maior parte do meu salário tem sido para os seus médicos e os remédios. As crianças fazem o que podem para ajudar, mas tem sido difícil colocar comida para todos na mesa. Vocês talvez achem esquisito que eu vá comer o meu almoço sozinho, num canto... Bem, é que eu fico meio envergonhado, porque na maioria das vezes eu não tenho nada para pôr no meu sanduíche. Ou, como hoje, eu tinha somente uma batata na minha marmita. Mas eu quero que saibam que essa porção de peixe representa, realmente, muito para mim. Provavelmente muito mais do que para qualquer um de vocês, porque hoje à noite os meus filhos... - ele limpou as lágrimas dos olhos com as costas das mãos -hoje à noite os meus filhos vão ter, realmente, depois de alguns anos...
E ele começou a abrir o pacote...
Nós tínhamos estado prestando tanta atenção no Ernani, enquanto ele falava, que nem havíamos notado a reação do Mauro. Mas agora, todos nós percebemos a sua aflição quando ele saltou e tentou pegar o pacote das mãos do Ernani. Mas era tarde demais. Ernani já tinha aberto e pacote e estava, agora, examinando cada pedaço de espinha, cada porção de pele e de vísceras, levantando cada rabo de peixe.
Era para ter sido tão engraçado, mas ninguém riu. Todos nós ficamos olhando para baixo. E a pior parte foi quando Ernani, tentando sorrir, falou a mesma coisa que todos nós havíamos dito anteriormente:
- Obrigado!
Em silêncio, um a um, cada um dos colegas pegou o seu pacote e o colocou na frente do Ernani, porque depois de muitos anos nós havíamos, de repente, entendido quem era realmente o Ernani.
Uma semana depois, a esposa de Ernani faleceu. Cada um de nós, daquele grupo, passou então a ajudar as cinco crianças.
Graças ao grande espírito de luta que elas possuíam, todas progrediram muito: Carlinhos, o mais novo, tornou-se um importante médico. Fernanda, Paula e Luisa montaram o seu próprio e bem-sucedido negócio: elas produzem e vendem doces e salgados para padarias e supermercados. O mais velho, Ernani Júnior, formou-se em Engenharia; sendo que, hoje, é o Diretor Geral da mesma empresa em que eu, Ernani e os nossos colegas trabalhávamos.
Mauro, hoje aposentado, continua fazendo brincadeiras; entretanto, são de um tipo muito diferente: ele organizou nove grupos de voluntários que distribuem brinquedos para crianças hospitalizadas e as entretêm com jogos, estórias e outros divertimentos.
Às vezes, convivemos por muitos anos com uma pessoa, para só então percebermos que mal a conhecemos. Nunca lhe demos a devida atenção; não demonstramos qualquer interesse pelas coisas dela; ignoramos suas ansiedades ou seus problemas.
Pense nisso!