segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

PAI DO MEU PAI

Texto de Fabricio Carpinejar 

Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai. É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso. É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe. É quando aquele pai antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios. E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz. Todo filho é pai da morte de seu pai ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez, nosso último ensinamento... Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais. Uma das primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas. Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes. A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões, pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? Arrependeremo-nos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete. E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo acompanhou o pai até seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:
- Deixa, que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo. Colocou o rosto de seu pai contra seu peito. Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo. Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável. Embalou o pai de um lado para o outro. Aninhou o pai. Acalmou o pai. E apenas dizia, sussurrado:
- Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.
 
- Não seja melhor que os outros, seja melhor para os outros.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O CORAÇÃO DE UMA MULHER

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

No pico mais alto do Tibete, vivia o homem mais sábio do mundo.
Certa vez, um jovem discípulo, perguntou-lhe :
- Mestre dos Mestres, qual é o caminho mais curto, seguro e direto para chegar ao coração de uma mulher ?
O Mestre respondeu :
- Meu filho, não há nenhum caminho seguro para chegar ao coração de uma mulher; só encontrarás precipícios, penhascos, arbustos espinhosos e serpentes venenosas.
- Mas, então, Mestre, o que é que devo fazer para conquistar o coração da minha amada ?
- Lembra-te, amado discípulo, conserva na tua mente e no teu coração os ensinamentos e os conselhos que te darei. Segue-os fielmente e chegarás ao coração da mulher que amas.
- Seguirei, Mestre, seguirei...
- Os conselhos são os seguintes, filho: lava os dentes, nunca coce o saco na frente dela, lhe dê muitas flores e muitos presentes, levanta a tampa do vaso antes de urinar e baixa sempre depois lava as mãos, quando saíres do banheiro, não mastigues com a boca aberta, não arrotes nunca, não sejas grosseiro, não fales mal da mãe dela, ama-a como se fosse tua mãe, não digas palavrões, não te demores no banheiro, não deixes a toalha caída no chão, não lhe digas que não sabe dirigir, não chegues tarde a casa; sai do trabalho e vai imediatamente para casa, nem pense em ter amigas, telefone de qualquer lugar, diz-lhe a todo o momento que ela é a mulher mais bela que já viste...
O Discípulo, agoniado, nem deixa o Mestre concluir, volta-se e começa a descer a montanha.
Vendo a atitude do aprendiz, o Mestre o chama de volta:
- Meu filho, espera, volta aqui!
E o Discípulo responde:
- Não, Mestre, não preciso que me diga mais nada; agora entendo porque é que há tanto viado na Terra!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

O OÁSIS

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Conta uma lenda popular do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:
- Que tipo de pessoa vive neste lugar?
Por sua vez, o velho lhe respondeu com outra pergunta:
- Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem?
O jovem, meio desiludido, respondeu:
- Oh, um grupo de egoístas e malvados; estou satisfeito de haver saído de lá.
Ao ouvir sua resposta, o ancião avisou:
- A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui...
No mesmo dia, outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:
- Que tipo de pessoa vive por aqui?
O velho respondeu com a mesma pergunta:
- Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?
O rapaz respondeu:
- Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las.
Novamente o ancião avisou:
- O mesmo encontrará por aqui...
Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:
- Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?
Ao que o velho respondeu:
- Cada um carrega no seu coração o ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.