terça-feira, 11 de junho de 2024

O CANDIDATO

Texto de Aloisio Guimarães

Em qualquer cidade brasileira, seja uma capital ou interior, encontramos muito dos seus povoados, bairro, praças ou ruas, com nomes muitas vezes cômicos ou inusitados. Em Palmeira dos Índios, não era diferente: Gavião, Cafurna, Caldeirão, Rua do Pinga Fogo, Rua do Esconde Homem, Boca de Maceió, Alto dos Bodes... Lamentavelmente, já mudaram os nomes de quase todos eles. 
Dentre todos os seus povoados, um dos mais desenvolvidos - tanto que hoje já está emancipado, transformado na cidade Estrela de Alagoas - era o Povoado Bola, situado distante cerca de 10 km do centro da cidade. O Bola, antigamente, não era muita coisa: apenas uma praça, para onde se dirigiam duas ou três ruas. Hoje, já se desenvolveu bastante, em comparação ao que era no meu tempo de criança. Na década de 70, como ainda não existia nada (televisão, dvd, computador, internet...), qualquer acontecimento, por mais bobo ou importante que fosse, era motivo de diversão e aglomeração da população na praça do Bola.
Isto esplicado, vamos ao causo, que se tornou parte do folclore político da cidade: 
Estávamos no período eleitoral...
Gervásio Raimundo, um cidadão prestativo e um dos homens mais ricos da cidade, se candidatou a prefeito de Palmeira dos Índios. Talvez para lhe diminuir politicamente ou por inveja, seus adversários conseguiram lhe atribuir a fama de ser analfabeto, divulgado o seguinte episódio inverídico:
Chegou o dia do comício de Gervásio, no Povoado Bola. A praça estava lotada. Todo mundo querendo ouvir as promessas do candidato. Pois bem, na hora marcada do comício, ele começa o seu discurso:
- Povo boliviano!
Ao ouvir isso, o seu puxa-saco de plantão imediatamente cochicha no seu ouvido:
- "Seu" Gervásio, "boliviano" é quem nasce na Bolívia...
Dizem que o candidato assim retrucou:
- Ôxente, mininu, apôis tudo né Brasi?
Perdeu a eleição.
De analfabeto não tinha nada. Anos depois, foi um deputado estadual destacado e atuante, por várias legislaturas, e prestou dezenas de serviços ao povo de Palmeira dos Índios.
Obrigado, Gervásio.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

 Texto de Aloisio Guimarães


Quando criança, em Palmeira dos Índios, não perdia as matinês do Cine Palácio (de propriedade do saudoso Itamar Malta), principalmente quando eram filmes do gênero “bang-bang”: "A Árvore dos enforcados", "Billy The Kid", "Sete homens e um destino", "Duelo ao pôr do sol", "Jesse James", "O dólar furado", "Álamo", "Os brutos também amam", "O homem que matou o facínora"...
São excelentes e inesquecíveis filmes, tanto que alguns deles ainda são procurados e assistidos nos dias atuais. De todos eles, talvez o maior clássico seja "No Tempo das Diligências", com John Wayne (direção de John Ford). Este filmaço mostra a história de nove pessoas que são obrigadas a embarcar em uma perigosa viagem de diligência, através do território indígena, no estado do Arizona. Cada uma das personagens tem um motivo pessoal que o obriga a realizar a viagem. O filme é repleto de cenas clássicas dos westerns americanos: lutas com os índios, duelos na cidade...
Excetuando-se os "filmes de índios", como "No Tempo das Diligências", normalmente, os filmes de cowboy tinham sempre o mesmo enredo: um forasteiro que chegava a um lugarejo qualquer, perdido no meio-oeste americano, e terminava livrando-o do domínio do fazendeiro mau-caráter, que expulsava os pequenos colonos de suas terras e delas se apoderava. No final, após a realizar a limpeza que fazia na cidade, ele terminava ficando com a mocinha,  é lógico. No desenrolar da trama, sempre ocorriam assaltos às diligências e trens; assaltos a bancos; o manda-chuva da cidade tinha sua casa sempre cercada de capangas; os membros das quadrilhas, vez por outra, resgatavam os seus líderes presos nas cadeias; às vezes, o armazém que abastecia o lugarejo de suprimentos era assaltado...
Tais recordações fazem com que eu lhe pergunte se existe alguma semelhança com os dias atuais:
- Será que hoje ocorrem invasões de fazendas, sendo seus proprietários expulsos do local?
- Será que hoje ocorrem assaltos às diligência atuais (ônibus, vans, táxis...)?
- Será que hoje são registrados assaltos a bancos, loterias, correios...?
- Será que hoje encontramos seguranças armados em portas das casas e lojas?
- Será que os líderes de gang criminosas de hoje são resgatados por seus comandados?
 - Será que os nossos armazéns (lojas, mercearias, butiques...) estão sendo assaltados?
Se você respondeu "sim" para a maioria das questões acima, então, meu amigo, você está vivendo no "velho oeste americano", no ano de 1880 e, quem sabe, daqui a um século, seus netos estejam vivendo no ano 2024.
Ah, antes que eu esqueça:
- Naquele tempo, apesar de existirem juízes corruptos, os criminosos eram enforcados!

domingo, 2 de junho de 2024

MÁRIO DOS ÍNDIOS

Texto de Aloisio Guimarães

Se você quer brigar e acha
que com isso estou sofrendo
Se enganou, meu bem,
pode vir quente que eu estou fervendo.
Os versos acima são da música “Vem quente que estou fervendo”, de autoria de Carlos Imperial e Eduardo Araújo, cantada pelo Erasmo Carlos, que foi um estrondoso sucesso e é pano de fundo para o causo abaixo:
Diz a lenda que o nome da cidade de Palmeira dos Índios nasceu do amor, e seu trágico final, de dois índios da tribo Xucurus-Kariri, à sombra de uma frondosa palmeira.
As tribos Xucurus-Kariri habitaram, e ainda possuem descendentes, as terras palmeirenses. Por conta disto, o posto da Fundação Nacional do Índio - FUNAI - em Palmeira dos índios, em plena era da chamada ditadura militar, era comandado por um cidadão chamado Mário Furtado.
Apesar de ser um sujeito alto, galego, olhos esverdeados e com certa aparência de europeu. Para diferenciá-lo mais facilmente dos outros Mários que viviam na cidade, os seus amigos, entre eles o meu velho pai, o chamavam de "Mário dos Índios", numa clara alusão às suas atividades profissionais.
O conflito índio/homem branco/FUNAI sempre existiu e continuará a existir. E foi por causa de um desses conflitos que certo dia ele recebeu um telefonema de Maceió, no qual um amigo lhe avisava:
- Mário, toma muito cuidado porque vão fazer uma fiscalização aí na FUNAI de Palmeira. Tenha cuidado mesmo para a coisa não esquentar pro seu lado.
Aproveitando o grande sucesso musical do momento, Mário respondeu, em tom de brincadeira:
- Ora, pode vir quente que estou fervendo!
Chateado, o seu amigo interlocutor não achou nenhuma graça no que o Mário dos Índios lhe respondeu. “Dedurado” pelo “amigo da onça”, a brincadeira foi considerada um deboche e uma verdadeira afronta ao regime político em vigor. Imediatamente, Mário dos Índios foi preso e enviado para a capital, Maceió, onde passou alguns dias enjaulado.
A fiscalização foi efetuada e nada de irregular foi encontrado. Mário dos Índios era um homem honesto e de caráter irretocável.
Verdadeira ou não, esta é a versão que eu soube na época para a prisão do Mário dos Índios.
Anos depois, ele faleceu de infarto, feliz da vida, “trepando” com uma quenga, numa casa de tolerância (cabaré) existente na cidade!
Sem sombras de dúvidas, Mário dos Índios foi uma das figuras marcantes e que construíram a história de Palmeira dos Índios.
Não sei se existe alguma homenagem a ele, do tipo nome de rua ou praça. 
- Existe ou não?
Quem souber, responda.