segunda-feira, 17 de março de 2025

ETIQUETA MASCULINA

 POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Paulo era um verdadeiro casca grossa. Na cama, quando ia dormir, ele peidava, sem cerimônia alguma, embaixo das cobertas; tirava meleca do nariz e ficava fazendo bolinhas; arrotava alto; não tomava banho...
Margarida, sua mulher, já não suportava mais a situação... O único remédio viável era “tratamento de choque”. Assim, a Margarida resolveu, de uma vez por todas, "botar as manguinhas de fora" e lhe deu um ultimato:
- Paulo, de hoje em diante, exijo que você tenha, na cama, a mesma educação que você usa na sala de jantar!
Não deu outra: à noite, ambos deitados, Paulo, cheio de tesão, doido para trepar, vira-se para Margarida e fala:
- Magal, querida, por favor, queira me passar a xoxota...
ISSO É QUE É EDUCAÇÃO! 

segunda-feira, 10 de março de 2025

A CARTA DO CHEFE SEATTLE

 POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES 

Em 1854, o presidente dos Estados Unidos Francis Pierce, "O Grande Chefe Branco", fez uma oferta por uma grande área de território indígena e prometeu uma "reserva" para os índios. A resposta do Chefe Seattle, na versão abaixo, é  considerada uma das mais belas e profundas declarações já feitas sobre o meio-ambiente:
"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade.
Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma.
Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra.
Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes.
Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador.
O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho.
Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos.
Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos.
Uma coisa sabemos: O nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

quarta-feira, 5 de março de 2025

O CUSCUZ DA SEBASTA

Texto de Aloisio Guimarães 

O meu pai trabalhou na Rede Ferroviária Federal S.A., na qualidade de Chefe de Estação, tendo exercido suas atividades em algumas cidades de Alagoas, mas a maior parte do tempo foi em Palmeira dos Índios ou em Igaci.
Quem não conhece Igaci, saiba que é uma pequena cidade, distante cerca de 16 km de Palmeira dos Índios. Todo mundo que viaja de Palmeira dos Índios para Arapiraca, ou vice-versa, obrigatoriamente, tem que passar por Igaci. As duas cidades são tão próximas uma da outra que muitas vezes fiz o percurso Palmeira/Igaci "nas canelas", caçando passarinho, ou então de bicicleta.
Como não pagávamos passagens nos trens, tendo em vista que nosso pai trabalhava na rede ferroviário e por isto éramos conhecidos do Chefe do Trem, quase todos os dias, eu e o meu irmão Casé, estávamos em Igaci. Às vezes dormíamos por lá, outras não. Nas vezes que dormíamos, um de nós tinha a obrigação de ir até a casa da Sebastiana, uma conhecida do nosso pai, buscar um cuscuz de milho, ralado na hora, que ela preparava para o nosso velho comer no café da manhã (torrado em casa), com leite de gado, cheio de nata...
Sebastiana, que chamávamos de "Sebasta", era uma matuta muito bonita, solteira, galega, olhos verdes... Conhecendo o nosso pai, que sempre "gostou da fruta", eu e o Casé sempre desconfiávamos que ele tivesse algum um “rolo” com a moça, mas nunca tivemos a certeza, era só desconfiança. Não comentávamos isto para que mamãe não soubesse ou desconfiasse de nada...
Pois bem, certo dia, dormimos em Igaci e, no dia seguinte, logo cedo, assim que acordamos, o papai determinou:
- Casé, vá lá, na casa da Sebasta, buscar o cuscuz que eu mandei ela fazer...
O Casé, ouvindo a ordem do meu pai, se mandou para buscar o tal cuscuz...
Tem um ditado que diz que “quando o cão não vem, manda o secretário” e desta vez, o Casé foi o "secretário do cão". Enquanto esperava a Sebasta terminar de cozinhar o cuscuz, ele pegou uma espingarda “soca-tempero” (arma de fabricação caseira, que o "homem da roça" usa para caçar passarinhos), mirou numa galinha, que ciscava no meio do terreiro, e puxou o gatilho. Nada aconteceu... Então o Casé deduziu o lógico: "está descarregada...".
Minutos depois, aparece a Sebasta, trazendo o cuscuz nas mãos. Casé, mirando a espingarda no cuscuz, que estava nas mãos da Sebasta, disse:
- Sebasta, já pensou se esta espingarda tivesse carregada?
Disse isto e puxou o gatilho. O que se ouviu e foi um estampido, seguido de pedaços de cuscuz voando para tudo quanto era lado! A espingarda estava carregada. Da primeira vez, ela tinha falhado, tinha "quebrado côco", como diz o matuto.
Felizmente, o cara era bom de pontaria e a Sebasta não sofreu nada!
Depois do tiro, Casé começou a chorar, antevendo a tremenda pisa que ia levar (o meu pai era mais grosso do que papel de embrulhar pregos)... Casé só se acalmou quando a Sebasta disse que ia fazer outro cuscuz e jurou que nunca ia contar ao papai o que tinha acontecido. Promessa feita pela Sebasta e aceita pelo meu irmão.
Para encurtar a conversa, quando Casé chegou com o cuscuz, o meu pai foi logo perguntando, com aquela educação que Deus não lhe deu:
- Casé, que peste você foi que houve? Por que você demorou tanto?
Casé, meio sem graça, respondeu:
- Foi a Sebasta, papai, que acordou tarde e ainda tava ralando o milho.
O meu pai começou a comer o cuscuz, mas não parava de resmungar, baixinho:
- Sei não... Estou desconfiado desse cuscuz, ele está com um gosto estranho...
Quando papai saiu, eu perguntei ao Casé porque ele tinha demorado tanto. O meu irmão me contou tudo e disse que achava que papai tinha sentindo um gosto estranho no cuscuz porque a Sebasta tinha aproveitado parte da massa do cuscuz atingido pelo tiro, para fazer o novo cuscuz.
O papai faleceu e nunca soubemos se a Sebasta cumpriu a sua promessa de segredo.
Como "conheço o meu gado", acho que a desconfiança do meu pai com a demora do Casé naquele dia, não foi nada por causa do gosto do cuscuz; acho que ele ficou com uma pulga atrás da orelha, se perguntando:
- Será que o meu filho também anda comendo o "cuscuz" da Sebasta?
Até hoje, somente o Casé sabe a resposta...