quarta-feira, 10 de junho de 2015

JOCÃO

Texto de Carlito Lima

O Bar Colombo na Rua do Comércio era o ponto de intelectuais, políticos, artistas, boêmios e outros desocupados nos anos 50.
Meu pai, frequentador de fim de tarde, às vezes levava os filhos. Sentava à mesa, pedia cerveja, mandava servir aos meninos sanduíche de fiambre, queijo do reino e caldo de cana. No Bar Colombo conheci Jocão, o mais afamado mentiroso das Alagoas. Vestia sempre paletó branco, escolhia uma mesa que não houvesse possibilidades de pagar a conta, arrastava uma cadeira e sentava.
Perguntavam-lhe as novidades, era a senha para Jocão, com sua fértil imaginação, iniciar uma fantástica história inventada na hora.
Certa tarde, contou ser o maior criador de codorna do Brasil. De sua fazenda exportava codorna para todo mundo. Sua criação começou por acaso numa visita a Pedrinho, coletor estadual de Fernão Velho. Na saída Pedrinho embrulhou alguns ovos de codorna num jornal, presenteou Jocão, ele colocou o embrulho no bolso do paletó.
Passou-se mais um mês, certo dia, ao acordar, Jocão ouviu fortes piados em seu quarto, investigou de onde vinha o barulho incessante. Ao abrir o guarda-roupa desvendou-se o mistério, no bolso do paletó, estavam oito filhotes de codorna nascidos dos ovos, esquecidos, presente de Pedrinho.
Deu de comer pirão de farinha de mandioca, os bichinhos foram crescendo, se reproduziram com rapidez, ele teve de colocá-los em sua fazenda. Um jornal do sul considerou Jocão o maior produtor de codorna do país, talvez do mundo. Por mera sorte.
Ao contar a mentira pedia mais cerveja, tira-gosto. Pagava a conta com fantasiosas histórias.
Durante a II Guerra Mundial, constantemente Maceió entrava em “black-out” receio de um possível ataque aéreo alemão. As casas apagavam as luzes. Carros não circulavam. A cidade ficava às escuras prevenindo-se de um ataque. Havia uma rigorosa fiscalização, aviões brasileiros sobrevoavam a cidade procurando alguma falha, alguma luminosidade para corrigir.
Na tarde posterior a um rigoroso “black-out” Jocão apareceu no Bar Colombo, sentou-se à mesa de uns ricaços, foram perguntando pela novidade. Ele não se fez de rogado, iniciou a história.
- Eu quase não dormi nessa noite de black-out, os aviões da fiscalização sobrevoaram o tempo minha casa. Parecia haver alguma coisa errada. Acreditem, um avião passou tão baixo que meu vizinho acendeu o cigarro no fogo do motor do avião. De repente ouvi no rádio, havia um foco brilhoso, intenso, na rua onde moro. O locutor pedia aos populares identificar esse foco de alta luminosidade, senão submarinos e aviões alemães bombardeavam Maceió. De repente minha casa foi invadida por soldados do Exército, do 20º BC, identificaram o foco luminoso na janela de minha casa. Tudo foi esclarecido, a forte luminosidade era do anel de diamante de minha esposa que refletia a luz da Lua. A luz foi identificada por um oficial em posição no cais do porto, depois que os aviões deram o alarme. Cheguei a ser preso. Só sai do quartel hoje pela manhã.
Jocão se aborrecia quando o chamavam de mentiroso. Certa vez, no Bar Colombo pediram para contar uma mentira. Ele ficou triste, calado e muito sentido. Logo contou que sua mulher havia falecido. Estava por ali para espairecer um pouco e ver se arranjava algum dinheiro. Uma ajuda para o enterro da esposa.
No mesmo instante os boêmios solidários fizeram uma arrecadação. Deram certa quantia para Jocão, que, além de embolsar a grana, pegou algumas garrafas de cerveja, um taco de presunto, deixou na conta dos amigos e foi chorar a defunta.
Três boêmios compadecidos comparecerem ao enterro no outro dia às 10 horas. Ao chegar perto da casa de Jocão estranharam a falta de movimento e não ter cortinas negras nas janelas, costume antigo nos enterros velados em casa do defunto.
Bateram à porta, Jocão atendeu. Eles perguntaram a hora do enterro. Para espanto dos visitantes, nosso herói gritou para dentro de casa:
- Bastinha, venha ver quem veio para seu enterro!
E complementou para os dois companheiros:
 - Vocês não pediram para eu contar uma mentira?
Sua mulher apareceu dando uma bela gargalhada e convidou os amigos para uma irrecusável rodada de cerveja com tira-gosto de charque. A alegre “defunta” se divertia com as invencionices do marido.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

RESPEITO ÀS RELIGIÕES ALHEIAS

Texto de Leonardo de Sá Queiroga

Vemos ao redor do Globo Terrestre várias formas de conceber Deus, a suprema inteligência e causa primeira de todas as coisas, e várias são as denominações que damos a esse Ser superior, porém, todas as interpretações acerca do que é Deus, correspondem a um único Ser, a quem todos concordamos, nos criou.
Deus, em sua infinita sabedoria, justiça e bondade, nos traz a esse mundo com um propósito: aprender. Todos viemos a esse aprendizado de forma semelhante, partindo de um princípio simples e ignorante. Com o passar do tempo, vamos nos aperfeiçoando, conhecendo as leis que regem a criação e assimilando as lições que o Pai, através das situações proporcionadas pela vida material, nos destina para que tenhamos o mérito de nosso progresso.
Uma das primeiras lições em que nos ocupamos é a de compreender o que é Deus. Em busca da resposta, voltamo-nos ao nosso interior e, embora não tenhamos uma compreensão total do que é Deus, sabemos que Ele existe e se relaciona conosco através de várias formas. A partir da conscientização da sua existência, buscamos nos ligar com Ele, para compreendermos melhor o que viemos fazer aqui, como surgimos e o que Ele espera de nós, despontando então os primeiros traços da religiosidade em nosso ser.
Nosso caminhar pela vida à procura dessas respostas nos leva à companhia de outros aprendizes como nós, e por afinidade nos unimos a alguns, formando grupos que iniciam as chamadas religiões. Tais grupos, cada um com uma origem específica, têm suas próprias bases de ideias a respeito da criação e do seu Criador, e procuram cultuá-las através de rituais, cerimoniais e cultos próprios às condições de cultura, tempo e local existente, expressando o quão importante é o Criador para eles.
Assim, vemos as mais diversas manifestações da fé, cada uma delas ligadas à forma como o indivíduo e o grupo a que ele pertence consegue perceber e compreender o Criador, sendo que Deus não dá preferência a nenhuma delas, pois todas são pontes que levam seus filhos até Ele, seja por caminhos mais longos ou curtos, por compreensões mais complexas ou simples. A seus olhos, o importante é a essência e não a aparência. Só Lhe interessa o foco da religião, que deve ser o desenvolvimento contínuo do indivíduo, dentro do sentimento do Amor e da Caridade, uma vez que os cânticos não chegam a Ele senão pela porta do coração (ver L.E. perguntas 654, 838 e 842).
Nas religiões que seguem os ensinamentos de Jesus, vemos grandes divergências nas formas de culto e credo. Se formos consultar o cerne de seus ensinamentos, veremos que, em toda a sua pregação na Terra, o querido Mestre falou a cada um de nós que a nossa ocupação principal deve ser a de corrigirmos a nós mesmos. Não vemos, em momento algum das passagens do evangelho, referências para que corrijamos as faltas do nosso irmão, ou para que nos ocupemos em modificar a compreensão limitada de nosso vizinho, mas para que busquemos ampliar nossa própria capacidade de compreender ao nosso próximo e nos preocupemos em corrigir aquilo que ainda nos é falho. Como sua máxima, Cristo nos fala que devemos “... amar a Deus sobre todas as coisas, e ao nosso próximo como a nós mesmos”.
Amar ao nosso próximo é respeitar suas decisões, seu desenvolvimento e sua crença em Deus, seja ela qual for, pois é a forma como Ele consegue conceber a Inteligência Suprema, o Ser sobre o qual nenhum de nós tem conhecimento pleno e muito ainda nos falta compreender (ver L.E. pergunta 839).
Bibliografia consultada: Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos, 1857 - Instituto de Difusão Espírita, 98a edição, 1995.
NÃO BASTA APRENDER O EVANGELHO, É PRECISO VIVENCIÁ-LO.

sábado, 6 de junho de 2015

VIVENDO NA MISÉRIA

Texto de Rubens Mário
PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Me sinto muito mal quando alguns partidários do governo federal afirmam que os atuais mandatários, através dos ditos programas sociais, conseguiram diminuir a miséria no país. Acredito que essas pessoas, algumas até, esclarecidas, só enxergam a miséria num sentido bem restrito, limitando-a a simples pratos de comida, até mesmo à alguns goles de cachaça ou alguns tragos  a mais colocados à disposição dos mais pobres, sem educação, sobreviventes na nossa horrenda periferia social. Apesar do governo condicionar o recebimento dos supostos benefícios  à matricula dos filhos numa escola, isso acaba sendo uma ultrajante utopia, pois, a escola na prática não existe.
Na verdade, essas pessoas precisam compreender miséria como um conjunto de fatos hediondos que atinge a todos dentro de uma sociedade, contraditoriamente, eivada de sectarismos. Seria interessante que os defensores desse tipo de “guarida social” se despissem do medo e do nojo, e adentrassem a essas comunidades, pois, só assim, conheceriam o que é miséria. “Nunca antes na história desse país” se viu tantos jovens pobres envolvidos em delitos, ou, “nunca antes na história desse país”, se viu a classe média tão vilipendiada, pagando caro com seu trabalho, por uma roubalheira impune perpetrada por figurões e figurinhas organizados em conluio por todas as entranhas da república brasileira. A viciada e incentivada corrupção já se ramificou em todos os poderes na nação. As leis esdrúxulas fazem criminosos pobres e ricos, impiedosos, se misturarem, livremente, às suas vítimas, das quais debocham, e, em muitos casos, ainda lhes dão ordens e lhes ditam deveres. Ai daqueles que não obedecerem!
Passarei a citar abaixo, alguns fatos hediondos sofridos pela sociedade, inicialmente, individualizados, que, ao final, após lê-los, qualquer cidadão comum, terá a capacidade de uni-los, resumi-los  e, assim,  compreender o que é miséria social.
 Muitas das nossas escolas públicas estão fechadas por falta de condições de funcionamento, outras, apenas abertas; professores das escolas municipais de Maceió estão em greve; o piso salarial dos professores é desrespeitado; maternidades públicas, presídios e delegacias, super lotados; reformatórios super lotados de menores; ao saírem  de casa as pessoas já separam o celular e o dinheiro dos ladrões sem gravata; HGE, sem leitos, sem remédios, com funcionários trabalhando de forma precária; pacientes pobres não conseguem atendimento médico; planos de saúde cobram preços absurdos e prestam um mau serviço; hospital de doentes mentais ameaça expulsar os pacientes  por falta de pagamento do SUS; deputados ignoram determinação judicial e fazem votação secreta na assembleia legislativa de Alagoas; novos escândalos na Assembleia Legislativa são descobertos e encobertos; fraudes em licitação são cometidas por gestores municipais em todo o país; rios secos por falta de obras de infra estrutura; lagoas mortas por excesso de poluição; catadores de lixo passam privações por falta de apoio público; comerciantes com medo, atendem seus clientes através de grades; motoristas e cobradores de ônibus vivem em pânico devido aos constantes assaltos; motoristas e garçons do Senado Federal ganham  salários de até R$ 16.000,00; corte de benefícios sociais de trabalhadores é comemorado por Roussef à base de tequila;  técnicos de enfermagem do HGE recebem  salários de pouco mais de R$ 1.000,00; aposentados pela  previdência social recebem pouco mais de 1 salário mínimo no quinto dia útil do mês subsequente; Receita Federal obriga famílias de classe média baixa a passar privações, através de  impostos absurdos; Universidades Federais  em greve; contas de energia acumulam quatro reajustes em apenas quatro meses no ano; gasolina em Maceió é vendida à R$ 3,39 o litro; no  escândalo da PETROBRAS, só o PT, levou em propinas daquela estatal, cerca de 200 milhões de dólares, até o momento; entre “mensalões” do PSDB e do PT, estima-se uma roubalheira de, aproximadamente, 1 bilhão de reais; bancos cobram, livremente, taxas extorsivas, e um  banqueiro é Ministro da Fazenda.
Enquanto isso, ouvimos, “Safadão”, “Luxúria”, “Popozuda”, "Mc Gui", “Sapão”, “Catra”, apreciamos os músculos da Sato, a namorada da Evans, as “veia” e os “veio” se beijando na novela e, “nóis”, “tipo assim”, sem educação, vivendo na miséria.