sexta-feira, 14 de agosto de 2015

POEMA SOBRE UMA NOITE DE AMOR

Texto de Carlos Drummond de Andrade

Num momento de descontração, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu:
Satânico é meu pensamento a teu respeito e ardente é o meu desejo de apertar-te em minhas mãos, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares... Eu adormeci...
Hoje. quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para, na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo... Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo filho da puta!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

DITADORES

Texto de Paulo Geraldo

A Ditadura tem, sem dúvidas, raízes profundas dentro do homem. Nasce talvez do alto conceito que cada um tende a ter cerca de si mesmo o que o leva, de algum modo, a subjugar os outros homens.
Não é um mal existente apenas em certos “homens maus” que a vida gerou para desgraça dos outros, mas sim algo que existe dentro de todos nós. É uma manifestação exacerbada de egoísmo por parte de um homem, de uma mulher, que, de algum modo, chegou a ter qualquer espécie de poder.
Há por aí muitos pequenos ditadores que, não podendo ter um raio de ação maior, exercem essa função apenas do seu pequeno mundo. O veneno dessa semente maligna tem espalhado o sofrimento por todo quanto sítio, desde o lar à empresa, desde à família à nação.
Acontece que a maior parte dos ditadores não sai nos jornais, porque recebeu pouco poder...
Existe em cada um de nós um ditador, que se manifesta quando queremos pôr em prática os nossos desejos, não olhando a meios; quando estamos dispostos a pisar quem quer que seja com o fim de cumprimos a nossa vontade, quando os outros deixam de contar as coisas para nós ou se, por acaso, achamos que estorvam a concretização dos nossos planos ou a nossa realização pessoal. Sendo assim, a democracia não é um remédio para a ditadura.
A democracia, que talvez nem sequer exista na realidade, não passa de um sistema que poderia facilitar que não houvesse ditadores, se não fossem manuseados por homens. É que ainda ninguém curou o coração dos homens. O único remédio que está ao nosso alcance, já que não é possível eliminar a semente de destruição: Consiste em tornar o homem capaz de dominar, entre outras coisas, o impulso que o leva a subjugar os outros. É uma doença crônica que não se pode eliminar, mas que se pode controlar.
Acontece que muitas das nossas crianças estão precisamente a ser educadas para ditadores. Levados por um desejo grande de as vermos felizes, ansiando ver nos seus rostos aqueles sorrisos que são a luz das nossas casas, cometemos verdadeiros disparates educativos e contribuímos para que se transformem nada mais nada menos do que em pequenos monstros ditadores potencial. Cumprimos seus desejos, quando não devíamos fazer; quando a nossa cedência não é benéfica para eles. Basta-lhes por vezes, fazer uma birra, chorar um pouco, insistir mais vezes, para terem aquilo que pediam. Muitas vezes recusam-se a obedecer aos professores, por exemplo, ou a aceitar as regras de um jogo feito com os companheiros, porque estão acostumados a mandar... Lá em casa, o erro que elas cometem é tão parecido com uma virtude que mal reparamos nele.
Devíamos entender que o caminho para a felicidade não passa por ter todas as exigências satisfeita, todos os desejos cumpridos. Muito pelo contrário: é preciso ensinar-lhes a renúncia e o domínio de si mesmos; torná-los capazes de viverem com o facto inevitável de que a vida não é plenamente moldável aos nossos gostos e capricho; fazer-lhes ver que nós é que devemos adaptar-nos, em larga medida, a vida e aos modos de ser das outras pessoas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A IMORTALIDADE D'ALMA

Texto de Umberto Rhodes


Conhece-te a ti próprio e serás imortal...
Alguns séculos antes de Cristo, vivia em Atenas, o grande filósofo Sócrates. A sua filosofia não era uma teoria especulativa, mas a própria vida que ele vivia.
Aos setenta e tantos anos foi Sócrates condenado à morte, embora inocente. Enquanto aguardava no cárcere o dia da execução, seus amigos e discípulos moviam céus e terra para o preservar da morte. O filósofo, porém não moveu um dedo para esse fim; com perfeita tranquilidade e paz de espírito aguardou o dia em que ia beber o veneno mortífero.
Na véspera da execução, conseguiram seus amigos subornar o carcereiro (desde daquela época já existia essa prática...), que abriu a porta da prisão. Críton, o mais ardente dos discípulos de Sócrates, entrou na cadeia e disse ao mestre:
- Foge depressa, Sócrates!
- Fugir, por que? - perguntou o preso.
- Ora, não sabes que amanhã te vão matar?
- Matar-me? A mim? Ninguém me pode matar!
- Sim, amanhã terás de beber a taça de cicuta mortal - insistiu Críton.
- Vamos, mestre, foge depressa para escapares à morte!
- Meu caro amigo Críton - respondeu o condenado - que mau filósofo és tu! Pensar que um pouco de veneno possa dar cabo de mim...
Depois puxando com os dedos a pele da mão, Sócrates perguntou:
- Críton, achas que isto aqui é Sócrates?
E, batendo com o punho no osso do crânio, acrescentou:
- Achas que isto aqui é Sócrates? Pois é isto que eles vão matar, este invólucro material; mas não a mim. Eu sou a minha alma; ninguém pode matar Sócrates!
E ficou sentado na cadeia aberta, enquanto Críton se retirava, chorando, sem compreender o que ele considerava teimosia ou estranho idealismo do mestre.
No dia seguinte, quando o sentenciado já bebera o veneno mortal e seu corpo ia perdendo aos poucos a sensibilidade, Críton perguntou-lhe, entre soluços:
- Sócrates, onde queres que te enterremos?
Ao que o filósofo, semiconsciente, murmurou:
- Já te disse, amigo, ninguém pode enterrar Sócrates... Quanto a esse invólucro, enterrai-o onde quiserdes; não sou eu...Eu sou a minha alma!
E assim expirou esse homem, que tinha descoberto o segredo da Felicidade, que nem a morte lhe pôde roubar. Conhecia-se a si mesmo; o seu eu verdadeiro, eu divino, eterno, imortal.
Assim somos todos nós seres: Imortais, pois somos Alma, Luz, Divinos, Eternos... Nós só morremos, quando somos simplesmente esquecidos!