terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR

Texto de Eduardo Galeano
 JORNALISTA URUGUAIO

O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco.
Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas. E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!
Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso. Não, eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta. O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades. Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez. Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres. É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida! E mais: se comprava para a vida dos que vinham depois. A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça. E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador
Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.
- Aonde estão os sapateiros fazendo meia-sola nos tênis Nike?
- Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa?
- Quem arruma as facas elétricas? O afiador ou o eletricista?
- Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?
Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.
Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo. Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha, só a víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava. Desse tempo venho eu.  E não que tenha sido melhor, é que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo". Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado e precisemos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!
Por amor de Deus, minha cabeça não resiste tanto!
Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real. E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo: o que servia e o que não servia, porque, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.
Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.
- Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar?
- Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos... Como guardávamos tudo! Guardávamos as tampinhas dos refrescos! Como? Para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro; dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.
Guardávamos tudo...
Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette, até partidas ao meio, se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave. E as pilhas? As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa, porque não sabíamos bem se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais; não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim.
As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.
Os jornais serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisas para enrolar. Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, as páginas dos almanaques para fazer quadros, os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de copas". As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.
Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los, tão logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!
E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: "comam o sorvete e depois joguem o copinho fora", nós dizíamos que sim, mas os colocávamos na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.
E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah, não vou fazer...
Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis: também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.
Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer, não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A NOSSA LAMA

Texto de Rubens Mário
  PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Há alguns dias a sociedade brasileira foi sacudida pelo maior desastre ambiental de todos os tempos no Brasil. Estamos nos referindo ao inescrupuloso rompimento de uma das barragens da mineradora Samarco que armazenava em seu bojo rejeitos com altas concentrações de alumínio, ferro, e manganês, dentre outros componentes químicos altamente prejudiciais à vida de todos os seres vivos. Algumas multas foram anunciadas pelo governo, mas, paralela a punição dos responsáveis pela mineradora, dever-se-ia penalizar, também, as autoridades que aprovaram a instalação daquelas barragens naquele local! Será que, isentos de quaisquer subterfúgios politiqueiros, não seria trivial se imaginar que o rompimento futuro daquelas barragens seria uma coisa possível? Até quando, o dinheiro continuará sendo o “senhor da razão”? Essa última indagação deveria servir de alerta para toda sociedade brasileira, incluindo aqueles que comandam os nossos setores mais vitais.
A “anunciada” ruptura da represa liberou uma avalanche de lama tóxica; a palavra lama que possui diversas conotações na nossa, secundária, língua portuguesa, e que já vinha sendo bastante pronunciada nos nossos noticiários jornalísticos, se referindo aos roubos e canalhices dos nossos políticos, continuou sendo explorada pela mídia mostrando-a agora na sua forma literal – mistura de água com argila e os elementos químicos já citados acima. O composto que se transformou na lama tóxica e foi rapidamente misturada às águas dos rios e lagos da região, além do oceano, causou danos irreparáveis e irreversíveis à natureza e a toda espécie de vida que alimentava as populações circunvizinhas.
Infelizmente, a ausência de iniciativas sérias, desvinculadas de conchavos e hipocrisias políticos, tem causado prejuízos sociais, infinitamente superiores aos frágeis benefícios econômicos que, na verdade, só servem para aumentar a segregação entre ricos e pobres num país já eivado de inexplicáveis desigualdades sociais e econômicas.
O caso da mineradora Samarco que atua em conluio com a ex estatal, vale do rio doce, gerava lucros exorbitantes para os seus proprietários, em detrimento de parcos benefícios econômicos para a região e os seus trabalhadores, até o trágico desenlace.
Esse fatídico acontecimento que dizimou a vida de um rio e seus afluentes lá nos estados de Minas Gerais e Espirito Santo, deveria servir de mote para a nossa sociedade organizada, mormente, as entidades responsáveis pelo meio ambiente, e, assim, provocar uma luta, sem tréguas, para ainda tentar salvar as nossas arquejantes, Lagoas Mundaú e Manguaba. No caso da nossa Lagoa Mundaú, ao contrário do Rio doce, ela tem sido trucidada, paulatinamente, por uma outra espécie de lama, composta, essencialmente, por coliformes fecais, ou, uma lama de fezes e urinas, que é despejada diariamente, pela população residente no seu entorno. Na parte da Lagoa Mundaú que banha os bairros do Vergel do Lago e Trapiche da Barra, que deveria servir de fonte de alimento e belo cartão postal, não é mais possível se enxergar as suas margens, pois, ela foi, vergonhosamente, ocupada por barracos que servem de moradias para as famílias vítimas do holocausto social, maquiavelicamente, perpetrado pelo governo. Naquelas comunidades improvisadas, onde a vidas surgem por acaso, o índice de criminalidade é assustador, e, seres humanos são assassinados diariamente, na mesma proporção da vida animal, que, de forma doentia, ainda tenta sobreviver, bravamente, nas águas fétidas e poluídas daquele complexo lagunar.
Ao contrário da lama do rio doce, a nossa, ainda é possível de ser estancada.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A MINHA MULHER NÃO TRABALHA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Conversa entre um marido e um psicólogo:
- O que você faz da vida Sr. Bandy?
- Eu trabalho como contador em um banco.
- Sua esposa?
- Ela não trabalha. Ela é apenas uma dona de casa.
- Quem faz café da manhã para sua família na parte da manhã?
- A minha esposa, porque ela não trabalha.
- Em que momento é que a sua esposa acorda para fazer o café da manhã?
- Ela acorda por volta das 05:00 porque ela limpa a casa antes de tomar café da manhã.
- Como é que os seus filhos vão à escola?
- Minha esposa leva-los para à escola, porque ela não trabalha.
- Depois de levar seus filhos para a escola, o que ela faz?
- Ela vai para o mercado, em seguida, volta para casa para cozinhar e para lavanderia. Você sabe, ela não trabalha.
- À noite, depois de voltar para casa do escritório, o que você faz?
- Descanso, porque eu estou cansado após o trabalho.
- O que a sua esposa fazer então?
- Ela prepara as refeições, serve os nossos filhos, prepara refeições para mim e limpa a louça, limpa a casa, em seguida, leva as crianças para a cama.
Alguém perguntou uma mulher:
- Você é uma “mulher que trabalha” ou uma “dona de casa”?
Ela respondeu:
- Sim, eu sou um ”tempo inteiro”. Trabalho como esposa do lar. Eu trabalho 24 horas por dia: sou "mãe", mulher, filha, despertador, cozinheira, empregada doméstica, professora, garçonete, babá, enfermeira, uma trabalhadora braçal, agente de segurança, conselheira, sou um edredom... Eu não tenho feriados, não tenho licença por doença e não tenho dia de folga. Eu trabalho dia e noite. Estou de plantão todas as horas e sou paga com uma frase: "O que você faz todos os dias?".
A rotina diária da mulher começa de manhã cedo até tarde da noite. Isso é chamado de “não trabalha”? Ser “dona de casa” não precisa de Certificado de Estudo, mas seu papel é muito importante! Desfrute de suas esposas, porque os seus sacrifícios são incontáveis
Mulher é como sal: a sua presença nunca é lembrada, mas a sua ausência faz todas as coisas ficarem sem sabor.