domingo, 11 de setembro de 2016

CLUBE 99

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Era uma vez um rei muito rico. Tinha tudo: dinheiro, poder, conforto, centenas de súditos, mas, ainda assim, não era feliz.
Um dia, ele cruzou com um de seus criados, que assobiava alegremente enquanto esfregava o chão com uma vassoura. O rei ficou intrigado. Como ele, um soberano supremo do reino, poderia andar tão cabisbaixo enquanto um humilde servente parecia desfrutar de tanto prazer?
Intrigado, o rei perguntou ao seu conselheiro:
- Por que ele está tão feliz?
O conselheiro respondeu:
- Porque não é do Clube 99, majestade...
- Clube 99? O que é isso?!
- Majestade, para compreender o que é o Clube 99, ordene que seja deixado um saco com 99 moedas de ouro na porta da casa do servente.
O rei seguiu a orientação e mandou deixar 99 moedas de ouro na porta do seu criado.
Quando o pobre homem encontrou o saco de moedas na sua porta, ficou radiante. Não podia acreditar em tamanha sorte. Nem em sonhos tinha visto tanto dinheiro. Esparramou as moedas na mesa e começou a contá-las.
- 1, 2, 3…96, 97, 98, 99.
Achou estranho ter 99. Achou que poderia ter derrubado uma, talvez. Provavelmente eram 100. Mas não encontrou nada. Eram 99 mesmo.
Por algum motivo, aquela moeda que faltava ganhou uma súbita importância. Com apenas mais uma moeda de ouro, uma só, ele completaria 100. Um número de 3 dígitos! Uma fortuna de verdade.
Ficou obcecado por completar seu recente patrimônio com a moeda que faltava. Decidiu que faria o que fosse preciso para conseguir mais uma moeda de ouro. Trabalharia dia e noite. Afinal, estava muito perto de ter uma fortuna de 100 moedas de ouro. Seria um homem rico, com 100 moedas de ouro.
Daquele dia em diante, a vida do servente mudou. Passava o tempo todo pensando em como ganhar uma moeda de ouro. Estava sempre cansado e resmungando pelos cantos. Tinha pouca paciência com a família que não entendia o que era preciso para conseguir a centésima moeda de ouro. Parou de assobiar enquanto varria chão. O rei percebeu essa mudança súbita de comportamento e chamou seu conselheiro.
- Majestade, o criado, agora, oficialmente, faz parte do Clube 99.
E continuou:
- O Clube 99 é formado por pessoas que têm o suficiente para serem felizes, mas mesmo assim não estão satisfeitas. Estão constantemente correndo atrás desse 1 que lhes falta. Vivem repetindo que se tiverem apenas essa última e pequena coisa que lhes falta, aí sim poderão ser felizes de verdade. Majestade, na realidade é preciso muito pouco para ser feliz. Porém, no momento em que ganhamos algo maior ou melhor, imediatamente surge a sensação que poderíamos ter mais. Com um pouco mais, acreditamos que haveria de fato, uma grande mudança. Só um pouco mais. Perdemos o sono, nossa alegria, nossa paz e machucamos as pessoas que estão a nossa volta. E o pouco mais, sempre vira… um pouco mais. O pouco mais é o preço do nosso desejo.
E concluiu:
- Isso, majestade, é o Clube dos 99.

sábado, 10 de setembro de 2016

O CULPADO

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES
 
Contam que, certa vez, um determinado estado tinha um grande depósito de sucata, localizado no meio do deserto. O governador analisou a questão e chegou à seguinte conclusão:
- Alguém pode roubar essas peças, durante a noite... 
Então, para resolver este "problemão", o governador criou uma vaga de trabalho e contratou um vigia noturno.
Tempos depois, o governador voltou a pensar:
- Como é que o vigia vai fazer o seu trabalho, se ele não tem nenhuma instrução?
Assim, o governador resolveu criar a Secretaria de Planejamento, nomeando vários cargos comissionados. Na estrutura da nova secretaria, foi criado o Departamento de Comunicação, para escrever um Manual de Instruções, a ser distribuído ao vigia, e o Departamento de Cursos de Aperfeiçoamento de Pessoal, encarregado de ministrar cursos ao vigia, orientando como ele deve exercer as suas atividades.
Com o passar do tempo, o governador se questionou novamente:
- Como saberei se o vigia está obedecendo as instruções do Manual?
Como justificativa, criou a Secretaria de Fiscalização e Controle de Qualidade e, novamente, nomeou dezenas de cargos comissionados. No âmbito da nova secretaria, um Departamento de Fiscalização, encarregado de fiscalizar as atividades do vigia, e o Departamento de Controle, encarregado de escrever os relatórios da atuação do pobre empregado.
Com o passar do tempo, o governador tem uma nova dúvida:
- Como essas pessoas vão receber o salário?
Então, para resolver a questão, o governador criou a Secretaria de Administração de Pessoal e Folha de Pagamento (composta de vários Departamentos) com a finalidade de controlar a Frequência dos Servidores e cuidar da Folha de Pagamento. Mais uma vez, o governador nomeou vários cargos comissionados.
O tempo passou...
No final do ano, o governador percebeu que havia algo errado porque o estado não tinha grana suficiente para manter a máquina administrativa funcionando. Depois de dezenas de reuniões com Secretários de Estado, Conselho Político, "puxa-sacos" e "aspones", o governador convocou uma entrevista coletiva, transmitida, ao vivo, por uma cadeia de rádio e televisão do estado e comunicou:
- As contas do estado estão em R$ 18.000,00 no vermelho. Temos que "apertar o cinto". O pagamento do "décimo" está comprometido e depende de uma operação de crédito que estamos tentando fazer. Diante da grave situação, não resta ao governo outra coisa a não ser "fazer o dever de casa". O governo tem que dar o exemplo e por isso é obrigado a "cortar na própria carne"... 
No dia seguinte, o Diário Oficial publicou a demissão do vigia!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A VIDA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Já escondi um amor com medo de perdê-lo,
Já perdi um amor por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por estar com medo,
Já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida,
Já me arrependi por isso...
Já passei noites chorando até pegar no sono,
Já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos...
Já acreditei em amores perfeitos, 
Já descobri que eles não existem... 
Já amei pessoas que me decepcionaram, 
Já decepcionei pessoas que me amaram...
Já passei horas na frente do espelho, tentando descobrir quem sou, 
Já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir...
Já menti e me arrependi depois, 
Já falei a verdade e também me arrependi... 
Já fingi não dar importância a pessoas que amava, para mais tarde chorar quieto em meu canto...
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, 
Já chorei de tanto rir... 
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, 
Já deixei de acreditar nas que realmente valiam... 
Já tive crises de riso quando não podia...
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse... 
Já gritei quando deveria calar, 
Já calei quando deveria gritar...
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, 
Outras vezes falei o que não pensava para magoar outros... 
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, 
Já fingi ser o que não sou para desagradar outros... 
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo mais feliz... 
Já inventei histórias de final feliz, para dar esperança a quem precisava... 
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro. Hoje, no escuro, "me acho... me agacho... fico ali"... 
Já caí inúmeras vezes, achando que não iria me reerguer, 
Já me reergui inúmeras vezes, achando que não cairia mais...
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria... 
Já corri atrás de um carro, por ele levar alguém que eu amava embora.
Já chamei pela mamãe no meio da noite, fugindo de um pesadelo, mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda...  
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram; 
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim...
Não me deem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre... 
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração... 
Não me façam ser o que eu não sou, 
Não me convidem a ser igual, porque, sinceramente, sou diferente...
Não sei amar pela metade, 
Não sei viver de mentiras, 
Não sei voar com os pés no chão...  
Sou sempre eu mesmo,
Mas com certeza não serei o mesmo para sempre