quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SOBREVIVENTES

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Primeiro, sobrevivemos sendo filhos de mães que fumavam, bebiam, enquanto “'nos esperavam chegar”. Nem elas nem nós, morremos por isso... Elas tomavam aspirina, comiam queijos curtidos e azulados sem serem pasteurizados, e não faziam teste do pézinho ou de diabete. E depois do traumático parto, nossos berços eram pintados com tintas a base de chumbo em cores  brilhantes lead-based e divertidas.
Não tínhamos tampinhas protetoras para chupetas ou mamadeiras, nem nos frascos de remédios, portas ou tomadas, e quando andávamos nas nossas bicicletas, não usávamos capacetes, isto sem falar dos perigos que corríamos quando pedíamos caronas.
Sendo crianças, andávamos nos carros sem cintos de segurança, air-bags e não ficávamos a sós nos bancos de trás...
E andar no bagageiro ou na carroceria de uma pick-up num dia ensolarado de verão, era uma diversão premiada.
Bebíamos água no jardim da mangueira e não de uma garrafa plástica. E era água pura.
Compartilhávamos um refrigerante com outros quatro amigos todos bebendo da mesma garrafa e ninguém, que eu me lembre, ficou doente por isso.
Comíamos bolos, pão com manteiga e tomávamos refrigerantes açucarados, mas não ficávamos gordos de ficar lesos, simplesmente porque estávamos sempre brincando na rua, na calçada, no quintal, no jardim ou na praça.
Saíamos de manhã e brincávamos o dia inteiro, desde que voltássemos antes das luzes da rua se acender.
Ninguém conseguia falar com a gente o dia todo. E estávamos sempre bem, tanto que sobrevivemos...
Passávamos horas construindo carrinhos de caixote para deslizarmos morro abaixo e só quando enfiávamos o nariz em alguma arvore é que nos lembrávamos de que precisava ter freios. Depois de alguns arranhões, aprendemos a resolver isto também, por nossa conta...
Não tínhamos Playstations, Nintendos, Arquivos X, nenhum vídeo game, nem 99 canais de seriados violentos ou novelas peçonhentas, nenhum filme em DVD ou VT ou VHS, nem sistemas de surround sound, muito menos telefones celulares, ou computadores de bolso, ou Internet ou salas de Chat... 
Tínhamos amigos... Íamos de bicicleta ou a pé para a casa de algum amigo e batíamos na porta ou tocávamos a campainha ou simplesmente abríamos a porta e entrávamos e ficávamos conversando com eles ou brincando.
Caímos de árvores, nos cortávamos, quebrávamos uma canela, um dente, e ninguém processava ninguém por isso. Eram acidentes.
Inventávamos jogos com paus e bolas de tênis e até minhocas e sapos eram dissecados por nós, cortávamos rabos de lagartixa para ficar olhando nascer um novo, e nos diziam o que ia acontecer se não nos comportássemos, mas nada acontecia nem quando engolíamos uma minhoca pra ser mais valente que o outro.
Os dentes de leite tinham jogos de teste, mas nem todo mundo passava nem ficava desesperado. Nem os papais interferiam com suas carteiras ou com suas vozes de poder. Tínhamos que aprender a ficarmos decepcionados. Imagine só!
Quebrarmos uma lei ou outra não resultava em castigo nem bronca homérica. Eles até estavam sempre ao lado da lei e da ordem... E agora?
Foram  essas gerações que produziram alguns dos mais aventureiros solucionadores de problemas, inventores e autores de todos os tempos!
Nos últimos 50 anos nós testemunhamos uma explosão de novidades e novas ideias. Tínhamos liberdade, podíamos errar, fracassar, ter sucesso e responsabilidade, e aprendemos que não há nada melhor que ter nascidos livres, pois, só assim, aprendemos a viver e sobreviver.
 Nós tivemos a sorte de sermos crianças, antes que os advogados, os pediatras e o governo estragassem nossas vidas de vez, nos transformando em bibelôs e barbies, e que nunca jogaram bola de gude...
Naquele tempo Homem casava com Mulher e Mulher casava com Homem, namorados eram ele com ela e ela com ele. 
Se você que está lendo é um de nós, parabéns!
Viva aquele tempo. 
Ah, que saudade!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

DISCRETAMENTE

Texto de Carlito Lima

Nove meses após o casamento do Dr. Romero e Dona Marilena nasceu Maria Aparecida; ano depois veio Ana Maria. As duas eram xodós da mãe, Dona Marilena, como se brincasse de boneca, vestia as duas iguaizinhas, andavam juntas, estudavam juntas, só não pareciam gêmeas porque Cidinha era branca, igual à mãe, e Aninha, morena, como o pai.
Na adolescência a primeira revolta, acabaram esse negócio de se vestirem iguais. Aos 13 anos, Aninha, mais esperta, já havia beijado um namoradinho. Cresceram na praia da Pajuçara. A juventude dos anos dourados era uma festa, apareceram namorados, Henrique amava Aninha que amava João que amava Cidinha que amava Henrique, assim, nesse círculo amoroso, passou o tempo. Para desespero e dor de corno de Henrique, João namorou Aninha, engravidou, noivaram e casaram em uma festa bonita no sítio dos pais na Massagueira, beirando a Lagoa. No dia do casamento, sem esperança de Aninha, Henrique cedeu aos encantos de Cidinha, começaram namoro, em dois anos casaram-se na mesma casa, no mesmo terraço, no mesmo jardim.
Anos passaram, os dois casais unidos em torno da família, vieram filhos para alegria dos avós. Dr. Romero comprou três apartamentos no mesmo prédio onde foi morar, deu um a cada filha, facilitando a visita constante dos netos, para felicidade de Dona Marilena.
Entretanto, a vida é um relâmpago como disse o poeta Lêdo Ivo, de repente um infarto, Dr. Romero caiu fulminado no chão de sua cozinha onde gostava de se deliciar com carnes gordurosas e as pernas das empregadas, tinha o pecado de gostar de mulher, às vezes se distraia com raparigas arranjadas por Audálio, o motorista.
Os genros tomaram conta dos negócios do sogro, inclusive uma fazenda lucrativa, eles se davam bem, corretos, os negócios continuaram a dar sustento de classe média alta para família. Entretanto, João percebia, era visível o carinho, o desvelo, de Henrique por sua mulher, tinha ciúme contido para o bem da família.
O destino tem seus caprichos. Certa noite os dois casais saíram para uma festa, muito vinho, comida, bebida. Ao voltar, João dirigia em velocidade, Henrique pediu para desacelerar, João virou a cabeça:
- Está com medo?
Nesse momento, um estrondo, um jipe vinha no sentido contrário bateu de lado, o carro virou duas vezes, gritos de dor. Custou a chegar socorro. Todos levados ao hospital foram atendidos, apenas João precisava maiores cuidados, ficou internado, entrou em coma, morreu uma semana depois. Maior tristeza para família, muita dor, contudo, a vida continuou.
Um ano após a morte de João, Cidinha inventou uma viagem, um cruzeiro às Ilhas Gregas. Deixaram os filhos com a avó. Na Itália, tomaram um transatlântico de luxo, duas semanas visitando as românticas, Miconos, Patmos, Lesbos, entre outras. No navio, toda noite depois do jantar, dançavam, se divertiam, arranjavam paqueras para Aninha, sempre rejeitados discretamente. Certa noite a orquestra tocou "As Time Goes By", Aninha pediu permissão à irmã pegou na mão de Henrique, puxou-o, dançaram lentamente. Aninha abraçava o cunhado, olhou em seus olhos perguntando:
- Lembra da música, vimos o filme juntos no Cinema de Arte?
Ele sorriu.
- Inesquecível, está guardada em minha mente e coração, já assisti "Casablanca" 300 vezes pensando em você.
Aninha sorriu. Ele continuou:
- Somos adultos, quase velhos, entretanto, amor não envelhece, nunca deixei de lhe amar, todos sabem, inclusive João, ele sabia. Só agora confesso a verdade, apenas para nós dois, casei-me com Cidinha para estar perto de você.
Calaram-se, abraçaram-se, juntaram o rosto. Nesse momento Henrique sentiu uma mão leve nas costas, a esposa comunicava cansaço, ia se recolher, ficassem mais um pouco. Dançaram apertados. Discretamente entraram no camarote da cunhada e se amaram pela primeira vez com toda ternura recolhida que tinham para dar.
Dia seguinte, no café da manhã, os três felizes, alegres, conversavam sobre o que viria na continuação. Ao retornarem, contaram as aventuras à família e aos filhos, mostrando fotos da viagem linda maravilhosa...
Henrique, hoje, aos 63 anos, vive bem com Cidinha, a esposa, em seu apartamento. Vez em quando, encontros de amor, ternura e carinho com Aninha, a cunhada.
Os três sabem, discretamente...

terça-feira, 4 de outubro de 2016

AS QUATRO ESPOSAS

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES
 
Era uma vez um rei que tinha quatro esposas.
Ele amava demais a quarta esposa e vivia dando-lhe lindos presentes, joias e roupas caras. Ele dava-lhe de tudo e sempre do melhor.
Ele também amava muito a terceira esposa e gostava de exibi-la aos reinados vizinhos. Contudo, ele tinha medo que um dia, ela o deixasse por outro rei.
Ele também amava sua segunda esposa. Ela era sua confidente e estava sempre pronta para ele, com amabilidade e paciência. Sempre que o rei tinha que enfrentar um problema, ele confiava nela para atravessar esses tempos de dificuldade.
A primeira esposa era uma parceira muito leal e fazia tudo que estava ao seu alcance para manter o rei muito rico e poderoso, ele e o reino. Mas, ele não amava a primeira esposa, e apesar dela o amar profundamente, ele mal tomava conhecimento dela.
Um dia, o rei caiu doente e percebeu que seu fim estava próximo. Ele pensou em toda a luxúria da sua vida e ponderou:
- É, agora eu tenho 4 esposas comigo, mas quando eu morrer, com quantas poderei contar?
Então, ele perguntou à quarta esposa:
- Eu te amei tanto, querida, te cobri das mais finas roupas e joias. Mostrei o quanto eu te amava cuidando bem de você. Agora que eu estou morrendo, você é capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?
- De jeito nenhum! - respondeu a esposa, e saiu do quarto sem sequer olhar para trás.
A resposta que ela deu cortou o coração do rei como se fosse uma faca afiada. Tristemente, o rei então perguntou para a terceira esposa:
- Eu também te amei tanto a vida inteira. Agora que eu estou morrendo, você é capaz de morrer comigo, para não me deixar sozinho?
- Não! - respondeu a mulher - A vida é boa demais! Quando você morrer, eu vou é casar de novo.
O coração do rei sangrou e gelou de tanta dor.
Ele perguntou então à segunda esposa:
- Eu sempre recorri a você quando precisei de ajuda, e você sempre esteve ao meu lado. Quando eu morrer, você será capaz de morrer comigo, para me fazer companhia?
- Sinto muito, mas desta vez eu não posso fazer o que você me pede! - respondeu a segunda esposa - O máximo que eu posso fazer é enterrar você!
Essa resposta veio como um trovão na cabeça do rei, e mais uma vez ele ficou arrasado.
Daí, então, uma voz se fez ouvir:
- Eu partirei com você e o seguirei por onde você for...
O rei levantou os olhos e lá estava a sua primeira esposa, tão magrinha, tão malnutrida, tão sofrida...
Com o coração partido, o rei falou:
- Eu deveria ter cuidado muito melhor de você enquanto eu ainda podia...
Na verdade, nós todos temos 4 esposas nas nossas vidas:
• Nossa "quarta esposa" é o nosso Corpo. Apesar de todos os esforços que fazemos para mantê-lo saudável e bonito, ele nos deixará quando morrermos...
• Nossa "terceira esposa" são as nossas Posses, as nossas Propriedades, as nossas Riquezas. Quando morremos, tudo isso vai para os outros.
• Nossa "segunda esposa" são nossa Família e nossos Amigos. Apesar de nos amarem muito e estarem sempre nos apoiando, o máximo que eles podem fazer é nos enterrar.
• E nossa "primeira esposa" é a nossa Alma, muitas vezes deixada de lado por perseguirmos, durante a vida toda, a Riqueza, o Poder e os Prazeres do nosso Ego... Apesar de tudo, nossa Alma é a única coisa que sempre irá conosco, não importa aonde formos...
Então, cultive, fortaleça, bendiga e enobreça a sua Alma agora. É o maior presente que você pode dar ao mundo e a si mesmo. Deixe-a brilhar!