segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O LOBO DE GÚBIO

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES
 
Gúbio, uma cidade na Úmbria, estava tomada de grande medo. Na floresta da região vivia um grande lobo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como os homens, de modo que todos do povoado estavam apavorados! Por isso, cercaram a cidade com altas muralhas e reforçaram as portas. E todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para um combate.
Certa vez, quando Francisco chegou naquela cidade, estranhou muito o medo do povo. Percebeu que a culpa não podia ser unicamente do lobo. Havia no fundo dos corações uma outra causa que era tão destrutiva como parecia ser a causa do lobo. Logo, Francisco ofereceu-se para ajudar. Resolveu sair ao encontro do lobo, sozinho e desarmado, mas cheio de simpatia e benevolência pelo animal, e como dizia às pessoas, na força da “Cruz”.
O perigoso lobo, de fato, foi ao encontro de Francisco, raivoso e de boca aberta pronto para devorá-lo! Mas quando o lobo percebeu as boas intenções de Francisco e ouviu como este se dirigia a ele como a um “irmão”, cessou de correr e ficou muito surpreendido. As boas vibrações de Francisco de Assis anularam a violência que havia no “irmãozinho” lobo. De olhos arregalados, viu que esse homem o olhava com bondade.
Francisco então falou para o lobo:
- Irmãozinho Lobo, quero somente conversar com você, meu irmão... E, caso você esteja me entendendo, levante, por favor, a sua patinha para mim!
O “irmãozinho lobo”, então, perante "tão forte vibração de amor e carinho", perdeu toda a sua maldade. Levantou, confiante, a pata da frente e, calmamente, a pôs na mão aberta de Francisco...
Então, Francisco disse-lhe amorosamente:
- Querido, “irmãozinho lobo”, vou fazer um trato com você: De hoje em diante, vou cuidar de você, meu irmão! Você vai morar em minha casa, vou lhe dar comida e você irá sempre me acompanhar e seremos sempre amigos! Você por sua vez, também será amigo de todas as pessoas desta cidade, pois, de agora em diante, você terá uma casa, comida e carinho, sendo assim, não precisará mais matar e nem agredir ninguém para sobreviver...
Com a promessa de nunca mais lesar nem homem nem animal, foi o lobo, com Francisco, até a cidade. Também o povo da cidade abandonou sua raiva e começou a chamar o lobo de "irmão". Prometeram dar-lhe cada dia o alimento necessário. Finalmente, o “irmão lobo” morreu de velhice, pelo que, todos da cidade tiveram grande pesar.
Ainda hoje se mostra em Gúbio, um sarcófago feito de pedra, no qual os ossos do lobo estão depositados e guardados com grande carinho e respeito durante séculos.
A história do Lobo de Gúbio, chama-nos, sem dúvida, à reflexão. Quantas vezes deparamo-nos com “irmãozinhos” um tanto agressivos, nervosos, impacientes, chegando mesmo a nos agredir com palavras ásperas, levando-nos à decepção e amarguras? Quantas vezes? Se pararmos para pensar e refletir, talvez chegamos à triste conclusão, de que esteja ocorrendo com eles, o mesmo acontecido com o lobo de Gúbio.
Ele, o lobo, acuado, com fome, sem receber compreensão e carinho, respondia também da mesma forma, com medo ódio e agressividade. Quando encontrou-se frente a frente com o Amor e a Paz, defendidas por Jesus em Seu Evangelho, e personificada, vivida e exemplificada por Francisco de Assis, o lobo não teve outra reação senão a de recuar em suas agressões e respondeu também com carinho e compreensão, passando de inimigo à companheiro e amigo de todos. Assim acontece em nossas vidas! Se oferecermos aos nossos semelhantes azedume, palavras de pessimismo, rancor, ódio e intolerância, receberemos, indubitavelmente, na mesma dose, tudo aquilo que semearmos, pois, como dizia São Francisco, "é dando que recebemos". 

domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESPOSTA MAIS CLARA É IMPOSSÍVEL

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

A PERGUNTA
- Alguém sabe me explicar, num português, claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão "no frigir dos ovos"?
A RESPOSTA
Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce, mas não é mole, nem sempre você tem ideias e para descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.
Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo. Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.
Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.
Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.
O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente. Por outro lado, se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco...
A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água para o vinho. Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa para sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.
- Está respondido?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O HOMEM DOS TAMANCOS

Texto de Aloisio Guimarães

Todos nós, que temos mais de 5.0, já usamos tamancos. Os mais jovens já ouviram falar deles, mas muitos não têm a mínima ideia de como eles eram feitos antigamente. Para você, que é jovem, explico que os tamancos eram calçados rústicos, pesados, fabricados artesanalmente, com uma tira de couro e solado de madeira, feito principalmente do tronco da mangueira. Por serem muito pesados, quando andávamos, o contato do solado de madeira com o piso cimentado das casas, fazia um enorme e irritante barulho, do tipo "ploc!, ploc!, ploc!..."  Esclareço ainda, a quem não viveu essa época, que piso cerâmico nas casas era coisa de rico e quase ninguém podia colocá-los; quando muito, o piso era de mosaico.
Além de ser o principal calçado da população pobre, os tamancos serviram também como palmatória, instrumento usado pelos pais para aplicar corretivos nas traquinagens dos seus filhos, batendo com o solado do calçado na palma das mãos da garotada.
Pois bem, durante muitos anos, os tamancos foram os calçados dos meninos e das meninas no nordeste brasileiro. Hoje, os tamancos estão completamente diferentes, mais sofisticados e leves, sendo até artigo de grife. Mas muita gente "boa" já andou de tamancos e morou em casa com piso cimentado...
Apresentado a personagem principal do nosso causo de hoje, o tamanco, vamos a ele:
João José, colega engenheiro civil, conhecido como Jota-Jota, é daquele tipo sonso, "come-quieto", que se faz de morto para comer o coveiro. Contam que, certo dia, a esposa de Jota-Jota precisou da sua ajuda em um serviço doméstico e o chamou:
- Jota-Jota! Vem cá, morzão!
Os minutos passaram e nada do Jota-Jota aparecer. Novamente, a esposa chamou:
- Jota-Jota, tá ouvindo não?! Vem cá!
Nada do Jota-Jota aparecer. Então, a mulher começou a ficar invocada:
- Jota-Jota, cadê você, peste?!
Novamente, nada do Jota-Jota aparecer...
Cansada de não ser atendida, ela resolveu procurá-lo pela casa. Para a sua surpresa, quando ela chegou à área de serviço, flagrou Jota-Jota "brechando" (olhando, escondido, pela fresta da janela) a empregada tomando banho.
Ao ver a cena, a mulher de Jota-Jota esbravejou:
- Ah, então foi por isso que você não me escutou, não foi, seu safado?!
Aí, a confusão rolou solta. Dizem as más línguas e fofoqueiros de plantão que o Jota-Jota chegou até a levar uns tabefes da "dona encrenca", para deixar de ser "mané".
Como castigo, desse dia em diante, a mulher do Jota-Jota fez ele voltar aos seus tempos de criança: agora ele é obrigado a andar sempre de tamancos, pisando forte: “ploc! ploc! ploc!...” Para ela saber em que lugar da casa o “taradinho” se encontra.
Não me perguntem quem é o Jota-Jota: conto o milagre, mas não digo o santo!