quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O SONHO DOS RATOS

 POSTAGEM ALOISIO GUIMARÃES

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade. Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade... Bem pertinho é modo de dizer. Na verdade, o queijo estava imensamente longe, porque entre ele e os ratos estava um gato.

O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e era uma vez um ratinho! Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam, mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro... Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais.

- Quando se estabelecer a ditadura dos ratos - diziam os camundongos - então todos serão felizes...

- O queijo é grande o bastante para todos - dizia um.

- Socializaremos o queijo - dizia outro.

Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam... Nos seus sonhos, comiam o queijo. E, quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados:  não diminuem; crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando:

- Ao queijo, já!

Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era. O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso e, dos ratos, surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu. Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.  Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto do queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram. Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si. Alguns ameaçaram chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem.

O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:

"Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono".

Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros e fracos, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido. O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato, o olhar malvado, os dentes à mostra. Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. Os ratos fortes se tornavam cada vez mais fortes. Diziam mentiras para enganar os outros ratos. Os ratos fracos acreditavam nas mentiras por ignorância ou por medo. Por medo, muitos ratos fracos defendiam os ratos fortes, na esperança ganhar alguma migalha de queijo. Os ratos fortes criaram impostos. Sempre aumentavam estes impostos. Precisavam arrecadar dinheiro para poder ficar mais fortes e assim poder cuidar do queijo. Precisam de mais e mais impostos, porque só eles poderiam cuidar da saúde dos ratos fracos!

Todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos...

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O PASTOR E O BURRO

 POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Um pastor observava tranquilo o seu burro pastando em uma verde pradaria. De repente, ouviu ao longe os gritos de uma tropa inimiga, que se aproximava rapidamente. Ele rogou ao animal para que este corresse, levando-o na garupa, o mais rápido que pudesse, a fim de que não fossem ambos capturados.
O burro com calma, falou:
- Por que eu deveria temer o inimigo? Você acha provável que o conquistador coloque em mim mais dois outros cestos, além dos dois que já carrego?
- Não - respondeu o pastor.
- Então - disse o animal - contanto que eu carregue os dois cestos que já possuo, que diferença faz a quem estou servindo?
Moral da História:
Mudar o governante é mudar apenas o nome do seu novo senhor!

domingo, 1 de novembro de 2020

MEDINDO A RIQUEZA HUMANA

 Texto de Catón

Tenho a intenção de processar a revista "Fortune", porque fui vítima de uma omissão inexplicável: ela publicou uma lista dos homens mais ricos do mundo, e nesta lista eu não apareço. Aparecem o sultão de Brunei e os herdeiros de Sam Walton e Mori Takichiro. Incluem personalidades como a rainha Elizabeth, da Inglaterra; Niarkos Stavros e os mexicanos Carlos Slim e Emilio Azcarraga... Mas eu não sou mencionado na revista.
E eu sou um homem rico, imensamente rico. Como não?  Vou mostrar a vocês:
- Eu tenho vida, que eu recebi não sei porquê, e saúde, que conservo  não sei como;
- Eu tenho uma família, esposa adorável, que ao me entregar sua vida me deu o melhor para a minha; filhos maravilhosos, dos quais só recebi felicidades; e netos com os quais pratico uma nova e boa paternidade;
- Eu tenho irmãos que são como meus amigos, e amigos que são como meus irmãos.
- Tenho pessoas que sinceramente me amam, apesar dos meus defeitos, e a quem amo apesar dos meus defeitos;
- Tenho quatro leitores a cada dia para agradecer-lhes porque eles lêem o que eu mal escrevo;
- Eu tenho uma casa, e nela muitos livros (minha esposa iria dizer que tenho muitos livros e entre eles uma casa);
- Eu tenho um pouco do mundo na forma de um jardim, que todo ano me dá maçãs e que iria reduzir ainda mais a presença de Adão e Eva no Paraíso;
- Eu tenho um cachorro que não vai dormir até que eu chegue, e que me recebe como se eu fosse o dono dos céus e da terra;
- Eu tenho olhos que vêem e ouvidos para ouvir, pés para andar e mãos que acariciam; cérebro que pensa coisas que já ocorreram a outros, mas que para mim não haviam ocorrido nunca;
- Eu sou a herança comum dos homens: alegrias para apreciá-las e compaixão para irmanar-me aos irmãos que estão sofrendo;
- E eu tenho fé em Deus que vale para mim amor infinito.
Pode haver riquezas maiores do que a minha? Por que, então, a revista "Fortune" não me colocou na lista dos homens mais ricos do planeta? 
E você, como se considera? Rico ou pobre?
Há pessoas pobres, mas tão pobres, que a única coisa que possuem é dinheiro!