segunda-feira, 11 de maio de 2015

A FAMÍLIA QUARESMA

Texto de Carlito Lima

Raimundo Nonato Quaresma, alto funcionário federal, veio transferido do Maranhão  trabalhar na cidade de Maceió. Além da mudança trouxe a família, a esposa Dona Olga e as filhas moças, Ana Nery, Isabel Cristina e Maria Quitéria, nomes de heroínas brasileiras.
O fato se deu no início da década de 60. Seu Quaresma alugou uma boa casa nos arredores da praia de Jacarecica. Com pouco tempo, entrosou-se com homens importantes da cidade, figuras da política, do comércio, da justiça. Autoridades civis, militares, até eclesiásticas, tornaram-se íntimas de sua residência.
Graças às estripulias da gostosa esposa e filhas, Seu Quaresma, com pouco tempo de estabelecido, era considerado o maior corno de Maceió.
Sua casa uma festa constante. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados, também jovens amigos das belas meninas, altamente comunicativas.
Não eram devassas como pode parecer. Acontece que, Dona Olga e diletas filhas tinham comportamento avançado, sem preconceitos, para época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Quaresma eram dadas às peculiaridades mais avançadas.
Elas inventaram a moda do “ficar”. Não havia namorado fixo, o primeiro a chegar tinha direito de arrastar, namoro de alta rotatividade.
Quem tinha carro levava vantagem. Contudo, sobrava para os mais jovens, os universitários eram bem vindos. Maria Quitéria adorava militar, eu, cadete da AMAN na época, me dei bem.
No Clube Fênix, o mais aristocrático da cidade, havia o elegante Baile de Máscaras, um mês antes do carnaval. Convidados só entravam no baile fantasiados ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite ou do concurso de fantasia. Festa animada, bonita e tradicional.
Como era em benefício ao Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso restrita a sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa.
Em certo baile, após a retirada das máscaras, baile animadíssimo, aparece a surpresa, Seu Quaresma fantasiado de Marajá, a esposa e filhas de Odalisca dançando e cantando animados em uma mesa.
À medida que alguns sócios frequentadores do Clube Fênix, também frequentadores da casa do Quaresma, perceberam a animação das odaliscas, ficaram preocupados. Muitos casados, noivos, outros com as namoradas, evitaram o encontro casual. O carnaval pegando fogo, as odaliscas davam adeusinhos discretos, alguns senhores passavam ao longe da mesa árabe.
Certo momento, um diretor, solteiro, foi cumprimentar Seu Quaresma. Ele levantou-se, conversaram um bom tempo no canto da parede.
Ao retornar, Seu Quaresma confabulou com a família. Foram se retirando do Clube Fênix, sem problemas, com direito a indenização da mesa, dos gastos com fantasias, bebidas e outros compensatórios, dinheiro pago na hora por um magnata do comércio, preocupado, medo da esposa, uma víbora gorda.
Aliviados, os magnatas dançaram despreocupados o resto da noite com suas madames.
Aos sábados havia almoço festivo no sobrado do Seu Quaresma. Certa vez, Ulisses foi levado por um deputado, o almoço, um temperado cosido. Dona Olga adorou a conversa divertida de Ulisses, engraçou-se do novo amigo, eufórico, também correspondia. Comeram e beberam à vontade.
Após se refestelarem com o cosido, estômago pesado, saboreando licor de jenipapo, Dona Olga convidou Ulisses descansar, dormir um pouco, depois continuava a festa. Ele aceitou, foi levado ao quarto do casal.
Dona Olga trancou-os à chave. Ela o abraçou, iniciaram o trabalho predileto da dona da casa. Ulisses encantado, com receio, perguntou se não havia problema, o marido dormindo na cadeira de balanço da sala, podia acordar. Ela deu-lhe uma lambida no pescoço, não haveria problema algum. Recomeçaram o xumbrêgo.
Quando estavam atravancados, de repente, Seu Quaresma bateu à porta gritando:
- Vocês vão morrer! Vocês Vão morrer!
Ulisses, apavorado, levantou-se rápido, tudo murchou. Vestiu rapidamente a calça, pensava fugir pela janela, quando Seu Quaresma continuou:
- Vocês vão morrer. Vocês são doidos! Depois do cosido dá congestão! Vocês vão morrer. Cuidado!
Ulisses se acalmou, deu-lhe um ataque de riso, continuou a faina, a luta, a labuta com a mestra, Dona Olga.
Não se faz mais corno como antigamente!

sábado, 9 de maio de 2015

TERRAS LUSITANAS

Texto de Aloisio Guimarães

No mês de abril passado, estive de férias e aproveitei para conhecer Portugal e também rever alguns amigos que não via há oito anos e que moram na região do Algarve.
Como esta não foi a primeira vez que estive na Europa, alguns fatos me chamaram a atenção, negativamente, já que não os detectei nos outros países que visitei. O principal deles foi o grau de pobreza crescente em Portugal: além visualizar pessoas catando lixo nas lixeiras das cidades, éramos constantemente importunados com pedidos de esmolas. Conversando com os amigos que fizemos, todos foram unânimes em apontar as mesmas causas do problema. As maiores justificativas e reclamações que ouvimos foram de que a entrada do país na comunidade europeia só fez piorar a situação econômica local; que os alemães já compraram grande parte do país e que o trânsito livre de pessoas, sem controle de fronteira, fez surgir os assaltos e roubos, ao ponto de dizerem que Portugal está ficando pior do que o Brasil. Como não poderia deixar de ser, a “esquerda” já começa a defender a volta do “escudo”, antiga moeda do país, o que equivale dizer a sua saída da comunidade europeia.
Deixando a parte política e economia de lado, foi muito bom conhecer a nossa pátria-mãe, com suas belas cidades e belos monumentos.
Durante a minha visita, cheguei às seguintes conclusões, lembrando que não sou o dono da verdade:
● A cidade do Porto é infinitamente mais bela do que Lisboa.
Braga é a mais linda cidade portuguesa.
Um destaque à parte é Valença (fronteira norte com a Espanha), onde a cidade antiga é toda cercada por muralhas, protegida por canhões. Grande parte dos serviços públicos (prefeitura, correios, comércio...) ainda funciona no local.
● As atrações turísticas do país ficaram dentro das expectativas: a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, o Castelo de São Jorge, o Castelo de Guimarães; a Universidade de Coimbra; o Cabo da Roca (ponto mais ocidental da Europa, levando Camões dizer “Eis aqui, quase cume da cabeça de Europa toda, o Reino Lusitano, onde a terra se acaba e o mar começa...”), a Ponte Luís I, a Ponte Vasco da Gama, a Ponte 25 de Abril, o Mosteiro dos Jerónimos, o Monumento Cristo Rei... A mais bonita delas, disparada, é o Palácio da Pena, em Sintra. Considerado “patrimônio nacional”, ele é simplesmente fantástico.
O Santuário de Fátima, para quem conhece o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, pode ser considerado modesto. Mesmo assim é muito bonito, principalmente a sua parte moderna.
● A região do Algarve, não chega a ser “nenhuma bratemp”, mas se distingue do resto do país pela atração que as suas praias provocam nos turistas e nativos. É impressionante o número de voos que chegam e partem de Faro (cidade pequena), a capital do Algarve, mesmo no período de “baixa estação”.
● Simples e bonita, a Igreja de Santa Luzia, em Viana do Castelo.
● Os preços são praticamente iguais aos praticados aqui, com exceção da alimentação que é mais barata. Come-se bem, com pouca grana, a depender do local e luxo.
● O meio de transporte mais utilizado no país, a exemplo da toda a Europa, é o trem (que lá chamam de comboio), limpos, rápidos e de pontualidade britânica.
● O povo português sabe quem é o Brasil, mas a grande maioria desconhece a extensão territorial do nosso país. Para muitos, somos do tamanho (ou menor) do que Portugal.
● O Benfica está para Portugal assim como o Flamengo está para o Brasil.
Como diz o ditado, “perco o amigo, mas não perco a piada”: Eu e a minha esposa fomos conhecer o Shopping Amoreiras, o mais luxuoso de Lisboa. Na hora de voltarmos, começou a cair uma chuva “daquelas” e, como não tínhamos mais o que fazer e estávamos cansados, resolvemos assistir um filme no cinema do shopping. No meio do filme, eis que aparece uma imagem parada, avisando que é “hora do intervalo”, ou seja, 10 minutos de interrupção na exibição do filme para a plateia ir ao sanitário (que lá chamam de “casa de banho”), comprar pipoca, balas e/ou refrigerante. Coisa de português...
Por fim, entendo que, para quem precisa do turismo para “sair do buraco”, o português precisa ser mais atencioso com seus visitantes. Em algumas ocasiões, a má vontade em fornecer informações foi gritante, principalmente na hora de comprar bilhetes do trem (comboio), atividade muito complicada para “marinheiros de primeira viagem”. Depois, quando se aprende (“na tapa”), vê-se que é prático e completo o livreto de opções de trens que lhes dão como resposta.
Mais uma vez, agradeço aos amigos Costa, Dina e Bruno, pelo “tratamento vip” que nos dispensaram, inclusive nos levando a conhecer Ayamonte e Huelva, sul da Espanha. 

PROFISSÃO OU BICO?

Texto de Rubens Mário
PROFESSOR E ADMINISTRADOR

Sempre ressaltei em diversos artigos escritos para jornais, blogs e sites, a importância, ou imprescindibilidade da educação para o equilíbrio social e econômico do nosso país. Escrevo, sem pretender ser o dono da verdade, mas, com a segurança de ter passado toda a minha vida em salas de aula, lecionando em todos os níveis escolares da educação pública e privada. Essa relação somente foi destroçada quando durante as férias do último ano letivo recebi um e-mail do coordenador do curso de administração do Cesmac - um administrador - comunicando que não mais servia para aquela instituição, pondo um fim melancólico a uma carreira que eu tanto amava. É importante esclarecer que outros competentes e dedicados profissionais também tiveram o mesmo tratamento e destino, ou, foram demitidos da mesma forma, na mesma época, e, pelos mesmos escusos motivos. É fundamental colocarmos que isso não é regra geral naquela instituição.
Se prestarmos bem atenção iremos descobrir que a profissão de professor, que deveria ser a mais delicada e respeitada pelo governo e pela sociedade, é a única que pode ser exercida, legalmente, por qualquer pessoa, mesmo que a sua vocação ou escolha profissional não tenha sido o magistério; ou seja, qualquer outro profissional que necessite de uma renda extra pode dar aulas em algum lugar. Por exemplo: para atuar como médico o profissional terá que ser formado em medicina, mas, se ele necessitar fazer um “bico”, poderá dar aulas, legalmente, em qualquer instituição de nível superior! É evidente que a recíproca será criminosa, e, podemos fazer essa ilação em todas as outras nobres formações, sempre com a negativa da reciprocidade.
Nas faculdades particulares, por exemplo, a exigência agora é que o pretendente à professor, apresente um título qualquer de mestre, mesmo que aquela titulação não tenha a devida credibilidade, ou, nada tenha haver com a área na qual ele irá atuar. A sua didática pouco irá importar, pois a instituição irá propagar que ali tem mestres ou doutores. Na instituição onde trabalhei por doze anos, cansei de ouvir ameaças do tipo: “Só vai ficar aqui quem for mestre ou doutor”! Ser um bom professor seria apenas um mero detalhe sem qualquer importância para o capital. É fulcral ressaltarmos que o MEC cobra dessas instituições a tal titulação. É também importante que não neguemos a importância da titulação dos professores, desde que fossem dadas as condições para tal, e que essas formações fossem genuínas e eficazes. O que presenciamos nestas instituições privadas são profissionais mal remunerados, desesperados com a ameaça do desemprego, se endividando para adquirirem titulações, muitas vezes de forma precária, concomitantemente, ao trabalho como professor. Nessas faculdades os problemas e suas ramificações tornam-se bem mais complexos, pois, além da falta de formação didática de alguns profissionais, ocorrem outros entraves inerentes ao mundo capitalista, à exemplo das demissões sem justa causa, onde muitas das vezes,  um  profissional sério e competente  é demitido por antipatia de quem comanda os cursos, tendo como recompensa legal, o recebimento da multa de 40% paga pela instituição que o defenestrou; os alunos e o profissional que se danem no feroz mercado de trabalho! Mesmo nas escolas públicas onde os professores só deveriam adentrá-la através de concursos públicos, ainda observamos monitores, muitos sem a devida formação no magistério. Nas Universidades públicas ainda encontramos, muito mais na área das ciências exatas, profissionais de elevada capacidade técnica, mas, sem nenhuma formação didática, o que dificulta a transmissão do conhecimento.
Seria imprescindível que os arautos da educação compreendessem que a verdadeira função de um mestre ou um doutor numa instituição é a de pesquisador, e não a de professor “biqueiro” como já ficou institucionalizada em nosso país tão carente de pesquisas em todas as áreas.