sábado, 16 de maio de 2015

VELHINHO APAIXONADO

Texto de Carlito Lima

Adamastor desde menino foi ligado ao dinheiro, respira notas, raciocina cifrões, sonha riquezas. Agiota, homem ligado aos poderosos, metido em negociatas. Financia candidaturas políticas; a cobrança vem depois, juros altíssimos, frequenta com maior intimidade os gabinetes em Brasília.
Adamastor teve casamentos desmantelados. A primeira mulher, Júlia, nascida na mais alta aristocracia açucareira, família tradicional, não aguentou as farras, as amantes e a usura do marido. Sete anos de casados, pediu divórcio. Adamastor arrumou seus panos, saiu de casa, deixou a esposa, dois filhos. Continuou seus negócios, tenebrosas transações, um gangster.
Mais dois casamentos desfeitos, mais dois filhos. Hoje, vive sozinho num belo apartamento, praia de Ponta Verde.
Aprendeu a lidar com o computador, seu passatempo, pesquisas, informações, negócios. Pegou a mania de homem solitário, namorar em salas de bate-papo na Internet. Conversa até altas horas da noite. “Namorou” e conheceu algumas internautas. Ele se gaba das namoradas, das aventuras com belas mulheres conhecidas nas conversas.
Em certa viagem a São Paulo marcou encontro com Bruninha, conhecida nas conversas internáuticas.  A jovem disse ser consultora da Bolsa de Valores, entendida em finanças, ele encantou-se. Marcou jantar num belo restaurante, centro da cidade. Bruninha ao entrar, elegante, parecia estar deslizando em passarela, fascinou nosso amigo, média estatura, sentou-se cruzando as pernas, pele rosada, parecia porcelana. Ele deslumbrou-se com a beleza dos cabelos, olhos negros, sobrancelhas grossas, nariz afilado, boca carnuda, lembrava Angelina Jolie, sua artista preferida.
Depois do jantar foram a uma casa de dança, música suave, corpos agarrados, vinho, boa conversa, terminaram a noitada na suíte do hotel. Bruna tirou a roupa num ritual, devagar, Adamastor ficou alucinado, abraçou-a, beijou-a, na boca, no pescoço, derrubou-a na cama acariciando-a. O resto é silêncio como diria Shakespeare. Bruna satisfez-se em carinhos, beijos, carícia. Ele sentiu-se o macho daquela mulher.
Depois de uma semana em São Paulo, o casal pousou em Maceió, morando de cama e mesa. Bruna feliz com a nova morada em frente ao mar verde-azulado, queria trabalhar, se ofereceu contribuir no escritório da Factory, entendia de finanças. Além de boa de cama era ótima de negócio. Que mais queria Adamastor? Viviam no céu, em lua-de-mel. Ganhava dinheiro na agiotagem e transava com sua musa. Sua assessora ajudava no pagamento de pessoal, no controle dos recebimentos e contas bancárias.
Numa noite de sexta-feira, retornando de uma reunião não encontrou Bruna  no apartamento. Havia combinado jantar. Esperou um pouco, telefonou para o celular, fora do ar. Discou várias vezes, preocupado, Bruninha era pontual, dizia ser a pontualidade a marca da civilidade.  Às nove horas Adamastor abriu o guarda-roupa de Bruna, não havia um vestido sequer. Telefonou para alguns conhecidos, ninguém sabia do paradeiro da namorada. Foi ao aeroporto, algumas investigações, no balcão alguém informou, uma mulher, com aquela descrição tomou um avião para S. Paulo no vôo das 16 horas. O nome Bruna não constava na lista de passageiro.
Adamastor desesperado retornou ao apartamento, tentou lembrar algum amigo comum em São Paulo, nenhum.
Passou um fim de semana angustiante, a sensibilidade indicava anormalidade grave acontecendo. Segunda - feira pela manhã, assim que o banco abriu, conferiu todas as contas, mais de duas horas confrontando, cotejando números, descobriu uma baixa aproximadamente de R$ 300 mil reais em suas contas; retiradas, descontos de cheques. Durante os quatro meses, Bruninha conseguiu acessos e senhas de contas e cartões, fez um trabalho calculado em pequenas retiradas.
Adamastor teve um ataque de nervos, em seus sessenta anos de vida ninguém teve a ousadia em roubá-lo daquela maneira, precisou se medicar, a depressão o envolveu. Fez as contas, quatro meses de convivência, média de três por semana, aproximadamente 48 transadas, dividiu na calculadora, resultado, R$ 6.250, 00 cada, mulher cara.
Não aguentou esperar, na quarta-feira tomou um avião para São Paulo, procurou a Polícia. Pela foto, Bruna foi reconhecida, chama-se Hortência, trapaceira de primeira ordem, especialista em golpe na Internet com velhinhos babacas, apaixonados, existiam 14 queixas de senhores sessentões, difícil encontrá-la, ladra fina, sem deixar vestígios.
Adamastor saiu mais frustrado da Delegacia. Além de ludibriado, foi taxado de velhinho babaca, apaixonado.

terça-feira, 12 de maio de 2015

CADÊ A INFÂNCIA QUE TAVA AQUI?

Texto de Gabriela César
PUBLICITÁRIA

Eu já vi muito adulto hoje em dia dizendo, “como vivíamos sem celular?” Eu mesma já me peguei pensando nisso e esse é o tema de hoje. Nós não só sobrevivíamos como vivíamos com plenitude aquela época sem tecnologia, internet e tudo que isso envolve
Quem se lembra da sensação de brincar na rua? De chegar do colégio morrendo de fome, fazer o dever, tomar o banho das 17h horas (sim, lá em casa era assim) e correr pra rua com os amigos. Os melhores amigos. Aqueles que ríamos uns dos outros e não que existia o bullying. Era saudável. Era seguro. Passávamos a tarde na rua brincando do patins ao elástico. Do queimado à batatinha frita 1,2,3. Do vôlei aos teatros e circo que tínhamos a ousadia de cobrar para que a vizinhança fosse assistir. E ela ia.
No lugar da maldade, tinha a aventura e as ideias não paravam de surgir. Nossa criatividade vivia a mil e nossos pais eram despreocupados porque a violência não existia ou pouco se via ou ouvia falar.
Nós caíamos, arranhávamos o joelho e nossa mãe colocava Mertiolate que ardia mais que tudo no mundo. Nós jogávamos aquele joguinho de mão Tetris e tínhamos Tamagush. Nós comprávamos flau, quebra-queixo, cavaco e escutávamos a mulher do sururu fresco.
É obvio que gosto do tempo que vivo hoje. Tudo é mais fácil, mas de certa forma, tudo em algum momento é mais perigoso também. A internet é uma janela que leva seu filho mais longe do que a porta da sua casa. Sem falar nas descobertas que só quem estava na rua, suando de tanto correr poderia explicar.
São infâncias diferentes, mundos diferentes, perigos diferentes. Mas quer saber? Não tenho inveja da infância que meu filho vai ter. Pelo contrário, tentarei mostrar ou tentar fazer com que ele goste de pelo menos um pouquinho do que era ser livre, livre de verdade.
Esse texto provavelmente não será interessante aos que já nasceram na era digital. Mas qualquer um que viveu algo que citei acima vai se identificar e certamente irá pensar sobre isso. Portanto, aqui está meu apelo: não é porque temos acesso a tudo sentando numa sala que não podemos fazer com que uma criança levante do sofá e experimente a infância que seus pais viveram.
Tecnologia é boa demais. Mas a experiência real e sentida é infinitamente melhor. E respondendo ao título do texto: a infância que tava aqui, continua aqui dentro de mim e certamente dentro de você também. 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A FAMÍLIA QUARESMA

Texto de Carlito Lima

Raimundo Nonato Quaresma, alto funcionário federal, veio transferido do Maranhão  trabalhar na cidade de Maceió. Além da mudança trouxe a família, a esposa Dona Olga e as filhas moças, Ana Nery, Isabel Cristina e Maria Quitéria, nomes de heroínas brasileiras.
O fato se deu no início da década de 60. Seu Quaresma alugou uma boa casa nos arredores da praia de Jacarecica. Com pouco tempo, entrosou-se com homens importantes da cidade, figuras da política, do comércio, da justiça. Autoridades civis, militares, até eclesiásticas, tornaram-se íntimas de sua residência.
Graças às estripulias da gostosa esposa e filhas, Seu Quaresma, com pouco tempo de estabelecido, era considerado o maior corno de Maceió.
Sua casa uma festa constante. Chegavam carros bonitos dos ricos e abastados, também jovens amigos das belas meninas, altamente comunicativas.
Não eram devassas como pode parecer. Acontece que, Dona Olga e diletas filhas tinham comportamento avançado, sem preconceitos, para época. Enquanto as pudicas meninas da sociedade alagoana namoravam de mãos dadas, as filhas do Quaresma eram dadas às peculiaridades mais avançadas.
Elas inventaram a moda do “ficar”. Não havia namorado fixo, o primeiro a chegar tinha direito de arrastar, namoro de alta rotatividade.
Quem tinha carro levava vantagem. Contudo, sobrava para os mais jovens, os universitários eram bem vindos. Maria Quitéria adorava militar, eu, cadete da AMAN na época, me dei bem.
No Clube Fênix, o mais aristocrático da cidade, havia o elegante Baile de Máscaras, um mês antes do carnaval. Convidados só entravam no baile fantasiados ou de smoking. Os foliões geralmente tiravam as máscaras depois da meia-noite ou do concurso de fantasia. Festa animada, bonita e tradicional.
Como era em benefício ao Lar de Menores, não se podia controlar a venda de ingresso restrita a sócios. A seleção dos convidados era feita pelo preço salgado da mesa.
Em certo baile, após a retirada das máscaras, baile animadíssimo, aparece a surpresa, Seu Quaresma fantasiado de Marajá, a esposa e filhas de Odalisca dançando e cantando animados em uma mesa.
À medida que alguns sócios frequentadores do Clube Fênix, também frequentadores da casa do Quaresma, perceberam a animação das odaliscas, ficaram preocupados. Muitos casados, noivos, outros com as namoradas, evitaram o encontro casual. O carnaval pegando fogo, as odaliscas davam adeusinhos discretos, alguns senhores passavam ao longe da mesa árabe.
Certo momento, um diretor, solteiro, foi cumprimentar Seu Quaresma. Ele levantou-se, conversaram um bom tempo no canto da parede.
Ao retornar, Seu Quaresma confabulou com a família. Foram se retirando do Clube Fênix, sem problemas, com direito a indenização da mesa, dos gastos com fantasias, bebidas e outros compensatórios, dinheiro pago na hora por um magnata do comércio, preocupado, medo da esposa, uma víbora gorda.
Aliviados, os magnatas dançaram despreocupados o resto da noite com suas madames.
Aos sábados havia almoço festivo no sobrado do Seu Quaresma. Certa vez, Ulisses foi levado por um deputado, o almoço, um temperado cosido. Dona Olga adorou a conversa divertida de Ulisses, engraçou-se do novo amigo, eufórico, também correspondia. Comeram e beberam à vontade.
Após se refestelarem com o cosido, estômago pesado, saboreando licor de jenipapo, Dona Olga convidou Ulisses descansar, dormir um pouco, depois continuava a festa. Ele aceitou, foi levado ao quarto do casal.
Dona Olga trancou-os à chave. Ela o abraçou, iniciaram o trabalho predileto da dona da casa. Ulisses encantado, com receio, perguntou se não havia problema, o marido dormindo na cadeira de balanço da sala, podia acordar. Ela deu-lhe uma lambida no pescoço, não haveria problema algum. Recomeçaram o xumbrêgo.
Quando estavam atravancados, de repente, Seu Quaresma bateu à porta gritando:
- Vocês vão morrer! Vocês Vão morrer!
Ulisses, apavorado, levantou-se rápido, tudo murchou. Vestiu rapidamente a calça, pensava fugir pela janela, quando Seu Quaresma continuou:
- Vocês vão morrer. Vocês são doidos! Depois do cosido dá congestão! Vocês vão morrer. Cuidado!
Ulisses se acalmou, deu-lhe um ataque de riso, continuou a faina, a luta, a labuta com a mestra, Dona Olga.
Não se faz mais corno como antigamente!