terça-feira, 4 de agosto de 2015

AMIGOS

Texto de Vinicius de Moraes


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências... 
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber - que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

domingo, 2 de agosto de 2015

A FEIRA

Texto de Luiz Ferreira da Silva
 ENGENHEIRO-AGRÔNOMO E ESCRITOR

O ponto mais importante de uma Cidade, sobretudo no Nordeste, é a sua feira. O primeiro “shopping center” que se tem notícias e possivelmente inspirador dos Americanos em sua capacidade de ganhar com a edificação de complexas estruturas de cimento abrigando lojas de diversas matizes.
O do meu interior (Coruripe, AL) é a céu aberto, com um galpão para abrigar certos produtos, a exemplo de carnes e farinha. Alguns feirantes com pequenas toldas e a maioria no chão mesmo, espalhando os seus cultivos trazidos das roças.
Dois aspectos importantes. O primeiro se refere ao estímulo ao pequeno produtor rural que dispõe de um lugar para comercializar os seus produtos. Em segundo, a importância para o pobre, adquirindo alimentos e outras necessidades sem o famigerado código de barras.
Fico pasmo ao ver pessoas carentes comprando nos supermercados pagando altos impostos, pela falta de uma feira.
Ao invés dos saquinhos já pesados e etiquetados, a cuia e a balança suspensa para mensurar o quanto de feijão, de farinha, de açúcar, dentre outros gêneros se deseja adquirir.
Poder-se-ia agregar um terceiro: ponto de encontro de toda a sociedade, todos dependentes da humilde feira. A carne verde como era chamada à época só era vendida aos sábados e justamente na feira, bem como galinhas e carne de porco.
Não se pode esquecer as trocas e os negócios efetuados, incluindo vendas de muares.
Lembro-me da variedade de produtos: farinha, arroz, feijão, fava, milho, frutas diversas, farinha d’água, malcasados, bolos de todos os tipos, amendoim, cebola, alho, macaxeira, inhame, abóbora, caldo de cana, cana caiana, roupas de alvorada como dizia Luiz Gonzaga, brinquedos de madeira, galinhas, porcos, passarinhos, camas, esteiras de piripiri, colchões de sapé, licor de jenipapo, bolsas de palha de Ouricuri, graviola, ovos, peixes, carne do sol, coco seco, pilombetas (peixinhos secos vindo de Piaçabuçu), fifós (candeeiros), cintos, cangalhas, jumentos.
Hoje, 60 anos depois, ela subsiste, ampliou-se e até se sofisticou, mas ainda mantém a cara de dantes. Só uma constatação triste: mais de 50% dos produtos vem da CEASA, Maceió, significando a debacle da pequena produção de grãos, frutas, aves, raízes e tubérculos pelo açúcar e pelo álcool.
Não houve uma política de governo voltada ao zoneamento agrícola que protegesse as pequenas propriedades e, tampouco, os respectivos estímulos à produção de alimentos e de pequenos animais.
Como era bonito ver os humildes rurais trazendo em caçuás os produtos, literalmente frutos do seu labor, da sua competência, do seu “ganha pão”!
Quando vou a Coruripe sempre o faço em dias de feira. Aliás, o bom Agrônomo deve frequentar as feiras para observar os produtos, conversar com os produtores e saber das preferências de consumo.
Assim como eu, meu amigo Zenalvo, aposentado do Banco Nordeste, que possui uma casa de veraneio na Lagoa do Pau, é também um apologista feirante. Não é que, de vez em quando, ele se acomoda numa tolda e se regala com uma galinha gorda, nadando no óleo, lá na feira de Coruripe!
Para os de fora aquilatarem o que aqui foi explanado, nada melhor que Luiz Gonzaga, em seu linguajar nordestino, exaltando a feira de Caruaru: 
A Feira de Caruaru,
Faz gosto a gente vê.
De tudo que há no mundo,
Nela tem pra vendê,
Na feira de Caruaru. 
Tem massa de mandioca,
Batata assada, tem ovo cru,
Banana, laranja, manga,
Batata, doce, queijo e caju,
Cenoura, jabuticaba,
Guiné, galinha, pato e peru,
Tem bode, carneiro, porco,
Se duvidá... inté cururu.
Tem cesto, balaio, corda,
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu,
Tem fumo, tem tabaqueiro,
Feito de chifre de boi zebu,
Caneco acuvitêro,
Penêra boa e mé de uruçú,
Tem carça de arvorada,
Que é pra matuto não andá nú. 
Tem rêde, tem balieira,
Mode minino caçá nambu,
Maxixe, cebola verde,
Tomate, cuento, couve e chuchu,
Armoço feito nas torda,
Pirão mixido que nem angu,
Mubia de tamburête,
Feita do tronco do mulungú.
Tem loiça, tem ferro véio,
Sorvete de raspa que faz jaú,
Gelada, cardo de cana,
Fruta de paima e mandacaru.
Bunecos de Vitalino,
Que são cunhecidos inté no Sul,
De tudo que há no mundo,
Tem na Feira de Caruaru.

sábado, 1 de agosto de 2015

EU ERA FELIZ E NÃO SABIA

Texto de Rubens Mário
  PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Diante dos fatos escabrosos que se repetem, cada vez com mais intensidade no nosso cotidiano, ao discuti-los, sempre repito aos os meus interlocutores: nós éramos felizes e não sabíamos! Aí, começo a fazer diversas comparações dos tempos idos com esse atual. Naquela época, que não está tão distante assim, tínhamos uma série de direitos que hoje não temos mais. Se prestarmos um pouquinho de atenção, descobriremos que muitas dessas perdas foram decorrentes do nosso sequencial, mesquinho e hipócrita processo político. Ao enumerar alguns, tentarei fazê-lo de forma crescente.
Maceió só era habitada até o bairro do Tabuleiro dos Martins; a nossa educação pública básica tinha uma excelente qualidade e era frequentada por pobres e ricos; ao concluir o curso primário, num grupo escolar público, as crianças eram submetidas à um rigoroso exame de admissão ao ginásio; concluído o 2º grau, os jovens prestavam um vestibular sério, e só ascendia ao ensino superior aqueles realmente preparados; a droga era somente a maconha, e os maconheiros nós contávamos nos dedos; todos tinham uma família equilibrada, independente de condição social; a música era para ser escutada, e, mesmo as dirigidas para a classe mais baixa, podia ser ouvida e escutada por todos; as praças eram importantes  áreas de lazer para as famílias; o homossexualismo já existia, mas, era praticado entre “quatro paredes, sem exibicionismos e nem publicidade; a televisão ainda não ousara tomar conta das nossas vidas; os assaltos que nós conhecíamos, eram apenas festinhas inocentes nas casas dos amigos; armas de fogo, só víamos nos filmes de bang, bang, nos cinemas; menores eram crianças inocentes e não tinham acesso à esbórnia; no São João só ouvíamos músicas da época; o carnaval era comemorado nos quatro dias, nas ruas e nos clubes, com frevos e marchinhas; as festas de Natal eram realizadas, respeitando a nossa cultura,  na praça do “pirulito”, ou, na praça da “faculdade”; tínhamos um folclore que era publicitado para todos;  as famílias tinham tempo suficiente para almoçar e jantar juntas; assassinatos nas ruas eram fatos extraordinários somente protagonizados por integrantes  de algumas famílias que brigavam por posses; nos nossos clássicos futebolísticos, mesmo naquela época, tendo dois clubes rivais no mesmo nível, torcíamos em paz, e até nos misturávamos ao assistir os grandes jogos; quando o meu querido CRB ganhava um título do rival, saíamos em passeata e carreata, do “trapichão“ até a nossa sede no bairro da Pajuçara, onde comemorávamos sem quaisquer perturbações da torcida do nosso maior adversário na época; as residências eram quase todas horizontais e as mais sofisticadas tinham muros baixos; as famílias sentavam às portas após o jantar sem quaisquer sobressaltos; a prostituição já existia, mas, tinha lugares próprios para a sua prática; não precisávamos sacrificar nossas rendas para sustentar planos de saúde; a água que nós comprávamos à CASAL era potável e servia também para beber; a corrupção também já existia, mas, devido ao tamanho do estado, a sua prática era bem menor; a eleição de políticos medíocres se tornava menos provável, pois, eles teriam, pelo menos, que “abrir a boca” nos comícios.
Diante do exposto, dá para imaginar que muitos desses direitos, tão triviais, poderiam ter sido mantidos se não tivéssemos permitido a abrupta e desumana transposição de uma pequenina cidade “sorriso”, para uma desengonçada metrópole cheia de vícios macaqueados de centros desenvolvidos, totalmente antagônicos à nossa pacata realidade social.
Infelizmente, os nossos filhos daqui a trinta anos não terão nada de bom para contar. Eu, posso afirmar, que era feliz e não sabia.