sábado, 1 de agosto de 2015

EU ERA FELIZ E NÃO SABIA

Texto de Rubens Mário
  PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Diante dos fatos escabrosos que se repetem, cada vez com mais intensidade no nosso cotidiano, ao discuti-los, sempre repito aos os meus interlocutores: nós éramos felizes e não sabíamos! Aí, começo a fazer diversas comparações dos tempos idos com esse atual. Naquela época, que não está tão distante assim, tínhamos uma série de direitos que hoje não temos mais. Se prestarmos um pouquinho de atenção, descobriremos que muitas dessas perdas foram decorrentes do nosso sequencial, mesquinho e hipócrita processo político. Ao enumerar alguns, tentarei fazê-lo de forma crescente.
Maceió só era habitada até o bairro do Tabuleiro dos Martins; a nossa educação pública básica tinha uma excelente qualidade e era frequentada por pobres e ricos; ao concluir o curso primário, num grupo escolar público, as crianças eram submetidas à um rigoroso exame de admissão ao ginásio; concluído o 2º grau, os jovens prestavam um vestibular sério, e só ascendia ao ensino superior aqueles realmente preparados; a droga era somente a maconha, e os maconheiros nós contávamos nos dedos; todos tinham uma família equilibrada, independente de condição social; a música era para ser escutada, e, mesmo as dirigidas para a classe mais baixa, podia ser ouvida e escutada por todos; as praças eram importantes  áreas de lazer para as famílias; o homossexualismo já existia, mas, era praticado entre “quatro paredes, sem exibicionismos e nem publicidade; a televisão ainda não ousara tomar conta das nossas vidas; os assaltos que nós conhecíamos, eram apenas festinhas inocentes nas casas dos amigos; armas de fogo, só víamos nos filmes de bang, bang, nos cinemas; menores eram crianças inocentes e não tinham acesso à esbórnia; no São João só ouvíamos músicas da época; o carnaval era comemorado nos quatro dias, nas ruas e nos clubes, com frevos e marchinhas; as festas de Natal eram realizadas, respeitando a nossa cultura,  na praça do “pirulito”, ou, na praça da “faculdade”; tínhamos um folclore que era publicitado para todos;  as famílias tinham tempo suficiente para almoçar e jantar juntas; assassinatos nas ruas eram fatos extraordinários somente protagonizados por integrantes  de algumas famílias que brigavam por posses; nos nossos clássicos futebolísticos, mesmo naquela época, tendo dois clubes rivais no mesmo nível, torcíamos em paz, e até nos misturávamos ao assistir os grandes jogos; quando o meu querido CRB ganhava um título do rival, saíamos em passeata e carreata, do “trapichão“ até a nossa sede no bairro da Pajuçara, onde comemorávamos sem quaisquer perturbações da torcida do nosso maior adversário na época; as residências eram quase todas horizontais e as mais sofisticadas tinham muros baixos; as famílias sentavam às portas após o jantar sem quaisquer sobressaltos; a prostituição já existia, mas, tinha lugares próprios para a sua prática; não precisávamos sacrificar nossas rendas para sustentar planos de saúde; a água que nós comprávamos à CASAL era potável e servia também para beber; a corrupção também já existia, mas, devido ao tamanho do estado, a sua prática era bem menor; a eleição de políticos medíocres se tornava menos provável, pois, eles teriam, pelo menos, que “abrir a boca” nos comícios.
Diante do exposto, dá para imaginar que muitos desses direitos, tão triviais, poderiam ter sido mantidos se não tivéssemos permitido a abrupta e desumana transposição de uma pequenina cidade “sorriso”, para uma desengonçada metrópole cheia de vícios macaqueados de centros desenvolvidos, totalmente antagônicos à nossa pacata realidade social.
Infelizmente, os nossos filhos daqui a trinta anos não terão nada de bom para contar. Eu, posso afirmar, que era feliz e não sabia.

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