domingo, 16 de agosto de 2015

A MULHER DA CAPA PRETA

Texto de Carlito Lima

Início dos anos 60 entrei em férias sonhadas, no paraíso, Maceió. Cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, éramos convidados para todas as festas na mais alta burguesia alagoana. Certa vez, acompanhado do colega, cadete Rocha, fui me divertir num 15 anos de uma jovem rica numa mansão na Pajuçara. Jovens dançavam no imenso salão iluminado por vistoso lustre.  Rocha havia recebido um convite formal, como chovia, além de fardado, levou a pelerine - capa longa, azul escuro, usada como integrante do uniforme do cadete, cobre os ombros e a parte superior do corpo, com fendas para os braços.
Quando a orquestra tocou “Blue Moon” o cadete Rocha avistou uma bela jovem no canto da sala, olhares insistentes. Num impulso irresistível levantou-se em direção à moça, único vestido preto naquela festa. Aproximou-se, antes de convidá-la para dançar, ela sorriu-lhe, falou baixo, estava lhe esperando. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.
Certo momento ele perguntou seu nome. Ela respondeu, Carolina, disse ser a melhor amiga de Naná, a aniversariante. Rocha também se apresentou, se gabou, no final do ano formava oficial do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras. Ela, apertando-lhe mão com a mão fria, “Eu já sabia!”
O cadete ficou impressionado, a jovem conhecer parte de sua vida. Contou histórias das Escolas Militares. Ela bastante interessada, juntaram os corpos, assim ficaram dançando, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Rocha sonhava, só percebeu onde estava quando a música parou por um momento.
Dançaram muito, conversaram pouco. Certa hora, Carol falou, devia ir para casa, tinha que chegar antes da meia-noite, promessa. O cadete gentil e interessado, ofereceu-se para levá-la. Na saída da mansão apanhou a pelerine. Como a chuva era intensa, num gesto elegante Rocha cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a da chuva, correram em direção ao ponto de ônibus.
Tomaram o “Ponta da Terra–Trapiche da Barra”, o ônibus quase vazio. Sentados no banco conversaram como se conhecessem há muitos anos.
Quando passava pela Avenida da Paz, Rocha puxou o rosto de Carolina, deu um beijo ardente em seus lábios frios. De repente percebeu, ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.
Perto da praça da Faculdade de Medicina, Carolina tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa preta, aliás, a pelerine azul escuro.
O cadete Rocha seguiu seus passos com o olhar até desaparecer na esquina, na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.
Pela manhã o cadete apaixonado acordou-se com a figura de Carolina gravada na cabeça e no coração. Só não lembrava onde havia marcado encontro com aquela bela e estranha moça.
Sete horas da noite Rocha caminhava, procurava a amada na praça da Faculdade. Ficou a olhar os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Carolina. Até que uma moça se assustou quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.
Rocha se encheu de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou assustada quando o rapaz perguntou se ali morava Carolina.
A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda, perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Carolina, se conheceram no dia anterior, tinham marcado para se encontrar naquela noite na praça.
O cadete Rocha arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos, quando a triste senhora respondeu, no dia anterior havia  feito um ano da morte de sua filha Carolina num desastre de carro. Entraram na casa, Rocha teve um ataque de choro ao ver o retrato de sua namorada com uma tarja negra cortando a foto em uma das pontas. Resolveram visitar o cemitério. Entraram pela alameda principal, desviaram para direita onde estava a sepultura de Carolina. Ao se aproximarem, perceberam ao longe, a pelerine, a capa preta, aberta cobria o túmulo. Se emocionaram, se abraçaram chorando. Ficaram no cemitério até a meia-noite quando os portões se fecharam.
Essa história tornou-se lenda, há quem diga ter visto o vulto de mulher, vestida de preto rondando o cemitério. No bairro do Prado, onde fica o cemitério, sempre alguém conta casos do vulto de preto. A história tornou-se tão forte que o carnavalesco Marcos Catende fundou o Bloco da Mulher da Capa Preta, sai todo carnaval na maior animação, um dos blocos mais animados de Maceió. Tem história.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

POEMA SOBRE UMA NOITE DE AMOR

Texto de Carlos Drummond de Andrade

Num momento de descontração, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu:
Satânico é meu pensamento a teu respeito e ardente é o meu desejo de apertar-te em minhas mãos, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.
A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares... Eu adormeci...
Hoje. quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para, na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo... Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo filho da puta!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

DITADORES

Texto de Paulo Geraldo

A Ditadura tem, sem dúvidas, raízes profundas dentro do homem. Nasce talvez do alto conceito que cada um tende a ter cerca de si mesmo o que o leva, de algum modo, a subjugar os outros homens.
Não é um mal existente apenas em certos “homens maus” que a vida gerou para desgraça dos outros, mas sim algo que existe dentro de todos nós. É uma manifestação exacerbada de egoísmo por parte de um homem, de uma mulher, que, de algum modo, chegou a ter qualquer espécie de poder.
Há por aí muitos pequenos ditadores que, não podendo ter um raio de ação maior, exercem essa função apenas do seu pequeno mundo. O veneno dessa semente maligna tem espalhado o sofrimento por todo quanto sítio, desde o lar à empresa, desde à família à nação.
Acontece que a maior parte dos ditadores não sai nos jornais, porque recebeu pouco poder...
Existe em cada um de nós um ditador, que se manifesta quando queremos pôr em prática os nossos desejos, não olhando a meios; quando estamos dispostos a pisar quem quer que seja com o fim de cumprimos a nossa vontade, quando os outros deixam de contar as coisas para nós ou se, por acaso, achamos que estorvam a concretização dos nossos planos ou a nossa realização pessoal. Sendo assim, a democracia não é um remédio para a ditadura.
A democracia, que talvez nem sequer exista na realidade, não passa de um sistema que poderia facilitar que não houvesse ditadores, se não fossem manuseados por homens. É que ainda ninguém curou o coração dos homens. O único remédio que está ao nosso alcance, já que não é possível eliminar a semente de destruição: Consiste em tornar o homem capaz de dominar, entre outras coisas, o impulso que o leva a subjugar os outros. É uma doença crônica que não se pode eliminar, mas que se pode controlar.
Acontece que muitas das nossas crianças estão precisamente a ser educadas para ditadores. Levados por um desejo grande de as vermos felizes, ansiando ver nos seus rostos aqueles sorrisos que são a luz das nossas casas, cometemos verdadeiros disparates educativos e contribuímos para que se transformem nada mais nada menos do que em pequenos monstros ditadores potencial. Cumprimos seus desejos, quando não devíamos fazer; quando a nossa cedência não é benéfica para eles. Basta-lhes por vezes, fazer uma birra, chorar um pouco, insistir mais vezes, para terem aquilo que pediam. Muitas vezes recusam-se a obedecer aos professores, por exemplo, ou a aceitar as regras de um jogo feito com os companheiros, porque estão acostumados a mandar... Lá em casa, o erro que elas cometem é tão parecido com uma virtude que mal reparamos nele.
Devíamos entender que o caminho para a felicidade não passa por ter todas as exigências satisfeita, todos os desejos cumpridos. Muito pelo contrário: é preciso ensinar-lhes a renúncia e o domínio de si mesmos; torná-los capazes de viverem com o facto inevitável de que a vida não é plenamente moldável aos nossos gostos e capricho; fazer-lhes ver que nós é que devemos adaptar-nos, em larga medida, a vida e aos modos de ser das outras pessoas.