quarta-feira, 4 de maio de 2016

O FILHO DA PUTA

Texto de João Vieira
Enviado de Portugal

Ramada Curto foi um advogado e jornalista bastante popular do meio teatral e jornalístico lisboeta da primeira metade do século XX, tendo intervindo nalguns dos processos-crime mais célebres do seu tempo.
Uma das histórias judiciais que ficaram célebres, na primeira metade do século XX, teve a ver com a defesa de um arguido acusado de chamar "filho da puta" ao ofendido, expressão que, na altura, era considerada altamente ofensiva.
Nas suas alegações, o escritor e advogado português Ramada Curto começou por chamar a atenção do juiz para o facto de muitas vezes se utilizar esta expressão em termos elogiosos: “Grande filho da puta, és o melhor de todos!”; ou carinhosos: “Dá cá um abraço, meu grande filho da puta!”, tendo concluído da seguinte forma:
- E até aposto que, neste momento, V. Exa. está a pensar o seguinte: "Olhem lá do que este filho da puta não se havia de ter lembrado só para safar o seu cliente!"...
Chegada a hora da sentença, o juiz vira-se para o réu e diz:
- O senhor está absolvido, mas bem pode agradecer ao “filho da puta” do seu advogado!

terça-feira, 3 de maio de 2016

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL E DEMOCRACIA

Texto de Rubens Mário
PROFESSOR E ADMINISTRADOR DE EMPRESAS

Tenho ouvido com muita preocupação as ilações intempestivas de defensores do atual governo federal com relação aos programas sociais postos em prática desde os governos do sr. FHC, e a suposta quebra da democracia com o impedimento da presidente. Essas referências enaltecem os tais programas que, segundo os partidários de Lula e Dilma, transformaram socialmente o país. Quando analisamos os principais programas, isolando-os da verdadeira situação social do país, é evidente que iremos afirmar que estão contribuindo para um suposto benefício social! Porém, quando os atrelamos à nossa realidade, enxergamos um caos social perpetrado pelas diversas formas de violência praticadas pelos nossos delinquentes de colarinho amarelo e pelos derivados, jovens marginais sem colarinho, chegamos à conclusão que não vão além de programas populistas que visam tão somente a perpetuação no poder. O bolsa família, principal fonte de renda, dos miseráveis e dos políticos, salvo raríssimas exceções, quando transfere o dinheiro para pessoas desprovidas de informação, sobreviventes em comunidades governadas pelo tráfico, sem a presença efetiva do Estado, está apenas alimentando um torpe crescimento econômico, em detrimento de um sadio desenvolvimento econômico e social que só se concretizaria com educação e trabalho dignos. O desenvolvimento social e econômico de uma sociedade necessita da presença firme do Estado com a educação básica, e assistência à saúde, não com esmolas jogadas à esmo!  Pobre não precisa de esmolas! Pobre necessita de educação, saúde e trabalho dignos! Então, por que não, transformar bolsa família em bolsas de estudos? Outro dia ouvi de um governista que a educação básica não era atribuição do governo federal. Respondi que até os anos 70, funcionavam em todo o país, as Escolas Industriais Federais, hoje transformadas em Institutos Federais; essas escolas funcionavam em tempo integral e os alunos, num turno cursavam o antigo ginásio, e, em outro, aprendiam um ofício – marcenaria, carpintaria, mecânica, música e etc. - os alunos, praticamente, viviam na escola, e, tinham direito também à assistência médica, dentária, e a prática de esportes. Será que os bilhões investidos no bolsa família não trariam um benefício social bem mais genuíno para toda a sociedade se fosse investido em educação básica? Aposto que sim. Ademais, o governo federal sabe que as prefeituras, a maioria, falidas, ou envoltas em casos de corrupção, não têm quaisquer condições de gerir a educação básica.
Um outro programa bastante lembrado nos discursos do governo, são as quotas raciais. Também olhando-a de forma isolada, aprovamo-la, pois, resgata uma dívida histórica remanescente do tempo da escravidão, mas, além de uma discutível secção social, alija do benefício, a maioria dos nossos negros, “despejados”, impiedosamente, das nossas escolas públicas básicas. Ademais, filhos de negros pobres “expulsos” da classe média, que renunciaram à um conforto merecido para pagar escolas particulares para os seus filhos, também não têm direito às quotas.
Num país com um índice absurdo de violência urbana, com carceragens superlotadas de jovens, muitos menores de idade, com níveis impressionantes de analfabetismo, com centenas de políticos processados por corrupção exercendo mandatos, com professores amordaçados e mal remunerados, com milhares de “parasitas” nas câmaras, assembleias e congresso nacional, com milhões de pessoas sem assistência médica e sem emprego, com uma classe média empobrecida, com banqueiros comandando e explorando a economia, com planos de saúde e clínicas particulares praticando agiotagem disfarçada e consentida, como  ousamos falar em transformação social e democracia?

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ESTE PAÍS...

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES
Enviado de Portugal por João Vieira 

Trinta e cinco anos de vida. Filho de gente humilde. Filho da aldeia. Filho do trabalho. Desde criança fui pastor, matei cordeiros, porcos e vacas, montei móveis, entreguei roupas, fui vendedor ambulante, servi à mesa e ao balcão. Limpei chãos, comi com as mãos, bebi do chão e nunca tive vergonha. Na aldeia é assim, somos o que somos porque somos assim. Cresci numa aldeia que pouco mais tinha que gente, trabalho e gente trabalhadora. Cresci rodeado de aldeias sem saneamento básico, sem água, sem luz, sem estradas e com uma oferta de trabalho árduo e feroz. Cresci numa aldeia com valores, com gente que se olha nos olhos, com gente solidária, com amigos de todos os níveis, com família ali ao lado. Cresci com amigos que estudaram e com outros que trabalharam. Os que estudaram, muitos à custa de apoios do Governo, agora estão desempregados e a queixarem-se de tudo. Os que sempre trabalharam lá continuam a sua caminhada, a produzir para o País e a pouco se fazerem ouvir, apesar de terem contribuído para o apoio dos que estudaram e a nada receberem por produzir. Cresci a ouvir dizer que éramos um País em Vias de Desenvolvimento e... de repente éramos já um País Desenvolvido, que depois de entrarmos para a União Europeia o dinheiro tinha chegado a "rodos" e que passamos de pobretanas a ricos "fartazanas". Cresci assim, sem nada e com tudo. E agora, o que temos nós?
1. UM PAÍS COM DUAS IMAGENS
· A de Lisboa: cidade grandiosa, moderna, com tudo e mais alguma coisa, o lugar onde tudo se decide e onde tudo se divide, cidade com passado, presente e futuro.
· E a do interior do país, território desertificado, envelhecido, abandonado, improdutivo, esquecido, pisado.
2. UM PAÍS DE VÍCIOS
· Esqueceram-se os valores, sobrepuseram-se os doutores.
· Não interessa a tua história, interessa o lugar que ocupas.
· Não interessa o que defendes, interessa o que prometes.
· Não interessa como chegaste lá, mas sim o que representas lá.
· Não interessa o quanto produziste, interessa o que conseguiste.
· Não interessa o meio para atingir o fim, interessa o que me podes dar a mim.
· Não interessa o meu empenho, interessa o que obtenho.
· Não interessa que critiquem os políticos, interessa é estar lá.
· Não interessa saber que as associações de estudantes das universidades são o primeiro passo para a corrupção activa e passiva que prolifera em todos os sectores políticos, interessa é que o meu filho esteja lá.
· Não interessa saber que as autarquias tenham gente a mais, interessa é que eu pertença aos quadros.
· Não interessa ter políticos que passem primeiro pelo mundo do trabalho, interessa é que o povo vá para o diabo.
3. UM PAÍS SEM JUSTIÇA
· Pedófilos que são condenados e dão aulas passados uns dias.
· Pedófilos que por serem políticos são pegados em ombros, e juízes que são enviados para as catacumbas do inferno.
· Assassinos que matam por trás e que são libertados passados sete anos por bom comportamento!
· Criminosos financeiros que escapam por motivos que nem ao diabo lembram.
· Políticos que passam a vida a enriquecer e que jamais têm problemas ou alguém questiona tais fortunas.
· Políticos que desgovernam um país e "emigram" para Paris.
· Bancos que assaltam um país e que o povo ainda ajuda a salvar.
· Um povo que vê tudo isto e entra no sistema, pedindo favores a toda a hora e alimentando a máquina que tanto critica e chora.
4. UM PAÍS SEM EDUCAÇÃO
· Quem semeia ventos colhe tempestades.
· Numa época em que a sociedade global apresenta níveis de exigência altamente sofisticados, em Portugal a educação passou a ser um circo.
· Não se podem reprovar meninos mimados.
· Não se pode chumbar os malcriados.
· Os alunos podem bater e os professores nem a voz podem levantar.
· Entrar na universidade passou a ser obrigatório por causa das estatísticas.
· Os professores saem com os alunos e alunas e os alunos mandam nos professores.
· Ser doutor, afinal, é coisa banal.
5. UM PAÍS QUE ABANDONOU A PRODUÇÃO ENDÓGENA
· Um país rico em solo, em clima e em tradições agrícolas que abandonou a sua história.
· Agora o que conta é ter serviços sofisticados, como se o afamado portátil fosse a salvação do país.
· Um país que julga que uma mega fábrica de automóveis dura para sempre.
· Um país que pensa que turismo no Algarve é que dá dinheiro para todos.
· Um país que abandonou a pecuária, a pesca e a agricultura.
· Um país que pisa quem ainda teima em produzir e destaca quem apenas usa gravata.
· Um país que proibiu a produção de Queijo da Serra artesanal na década de 90 e que agora dá prémios ao melhor queijo regional.
· Um país que diz ser o do Pastel de Belém, mas que esquece que tem cabrito de excelência, carne mirandesa maravilhosa, Vinho do Porto fabuloso, Ginjinha deliciosa, Pastel de Tentugal tentador, Bolo Rei português, Vinho da Madeira, Vinho Verde, lacticínios dos Açores e Azeite de Portugal para vender…
· E tanto, tanto mais... que sai da terra e da nossa história.
6. UM PAÍS SEM GENTE E A PERDER A ALMA LUSA
· Um país que investiu forte na formação de um povo, em engenharias florestais, zoo técnicas, ambientais, mecânicas, civis, em arquitectos, em advogados, em médicos, em gestores e economistas, em cursos profissionais, em novas tecnologias e em tudo o mais, e que agora fecha as portas e diz para os jovens emigrarem.
· Um país que está desertificado e sem gente jovem, mas com tanta gente velha e sábia que não tem a quem passar tamanha sabedoria.
· Um país com jovens empreendedores que desejam ficar, mas são obrigados a partir.
· Um país com tanto para dar, mas com o barco da partida a abarrotar.
· Um país sem alma, sem motivação e sem alegria.
· Um país gerido por porcaria.
- E agora, vale a pena acreditar?
Vale. Se formos capazes de participar, congregar novos ideais sociais e de mudar.
- Por quê acreditar?
Porque oitocentos anos de história, construída a pulso, não se destroem em tempo algum . Porque o solo continua fértil, o mar continua nosso, o sol continua a brilhar e a nossa alma, ai a nossa alma, essa continua pura e lusitana e cada vez mais fácil de amar.

domingo, 1 de maio de 2016

TRABALHADOR

Texto de Aloisio Guimarães

Dor...
Trabalho...
Trabalhador.
Trabalha a dor, trabalhador.
A dor do emprego,
A dor da empresa,
A dor do desemprego,
A dor da demissão,
A dor da aposentadoria,
A dor do salário,
A dor do trabalho,
A dor do cansaço,
A dor do fracasso,
A dor da dor.
Trabalha a dor.
Trabalha, trabalhador.
Trabalha.